Já malhou o Judas?

Judas pendurado no posteComo várias das tradições da cultura popular, a malhação do Judas vem desaparecendo das áreas urbanas dos grandes centros; sendo apenas observado no interior. Quem foi criado em subúrbio, em especial no Rio de Janeiro, sempre teve muito de cultura popular para aprender, que sempre foi passada como uma tradição cujas origens se perderam no tempo.

Uma dessas tradições que marcavam datas específicas era a malhação do Judas, trazida de Portugal, e também da Espanha, espalhando-se por toda América Latina no decorrer dos séculos.

Esta tradição tem origem, como várias das tradições religiosas católicas observadas no Ocidente, em ritos pagãos. O boneco de pano que representa Judas Iscariotes, por exemplo, não apenas apanhava; mas em alguns lugares da Europa ele era queimado no sábado de Aleluia. Esta queima tem como traço cultural a cerimônia do fogo novo que alguns povos, dentre eles os hebreus, praticavam. Na rua em que eu morava, o Judas não apenas apanhava, mas também virava churrasco.

Judas com cartazGeralmente, o boneco era feito com roupas velhas e em muitos casos trazia um cartaz pendurado ao pescoço informando os seus “pecados” ou dando o nome de alguém. Com o passar do tempo, a malhação incorporou novos elementos como a insatisfação com um determinado político ou instituição governamental, por exemplo. Pode-se dizer, no caso da insatisfação com os governantes, que é uma espécie de reclamação popular. Em outro prisma, malhar o Judas pode ser uma forma de justiça social, uma metáfora para o linchamento de elementos indesejáveis de ou em uma determinada comunidade. É mais saudável observar esta tradição como uma espécie de insatisfação popular, um desabafo contra uma situação econômica, política ou social adversa.

Além disso, pessoas da comunidade passaram a ter segredos revelados pelos vizinhos neste dia. Há casos de maridos que só descobriam as “costuras pra fora” da patroa quando, no testamento do Judas, o tal cartaz acima, um outro componente da tradição, seu nome era citado como marido traído. Alguns mais afoitos, ou perversos, se davam ao requinte de escrever frases desabonadoras nos muros da casa do, digamos, chifrado. Numa rua próxima a que eu morava, diziam ter surgido a seguinte frase: “Fulano, se chifre fosse rosa sua cabeça seria um jardim”. Contavam os mais velhos que isto foi motivo de bate-bocas e mudança do casal para um outro bairro.

O sentimento dos contrastes, que fecunda tão marcadamente o gênio dos povos meridionais da Europa, encontra-se igualmente no brasileiro, caracterizando-se pela capacidade de fazer suceder ao espetáculo lamentável das cenas da Paixão de Cristo, carregadas processionalmente durante a Quaresma, o enforcamento solene do Judas no Sábado de Aleluia. Compassiva justiça que serve de pretexto a um fogo de artifício queimado às dez horas da manhã, no momento da Aleluia, e que põe em polvorosa toda a população da cidade do Rio de Janeiro, entusiasmada por ver os pedaços inflamados desse apóstolo perverso espalhados pelo ar com a explosão das bombas e logo consumidos entre os vivas da multidão! Cena que se repete no mesmo instante em quase todas as casas da cidade. (Jean-Baptiste Debret,Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil)

Que Judas você malharia?

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