Um pouco do Japão no Brasil

Estava me deliciando com um álbum de fotografias dos imigrantes japoneses no Estadão. E este álbum vai mostrando não só as imagens do início do século XX, como também contando as várias histórias daquelas pessoas retratadas. Todas as histórias são marcadas pela superação de dificuldades, a preservação de boa parte da cultura japonesa e, também, pela integração a uma sociedade já miscigenada e, de certa forma, receptiva. Fico imaginando como deve ser difícil atravessar um oceano ou dois, quem sabe, para vir a uma terra que desde o século XVI fazia o restante do planeta sonhar. A vinda de enormes contigentes de imigrantes para cá fez a cara do Brasil ser muito mais aberta e ampla, moldando as nossas características hoje.

A imigração mais intensa, tanto de europeus quanto de orientais veio em seguida ao fim da escravidão. Um pouco antes da Abolição chegaram as primeiras levas de europeus e o processo intensificou mais ainda nas décadas seguintes, tanto que o primeiro grupo de japoneses veio em 1908, exatos vinte anos após o fim de uma das nódoas de nossa história.E na continuação da visualização deste álbum, fui me lembrando de um livro que se chama “Corações Sujos”, do Fernando Morais. Lógico que além desta lembrança outras me vieram como a do meu herói de infância e que me fez verter lágrimas de pura alegria quando, anos depois, encontrei numa locadora de vídeo várias fitas com as aventuras do National Kid. Até hoje ele é referência para pessoas da minha geração. A presença deste ícone cultural foi tão forte que durante muito tempo aqui nos muros de algumas ruas do Rio de Janeiro, e isto anos após a série ter saído do ar, aparecia a enigmática frase “Celacanto provoca maremoto” escrita em letras garrafais, remetendo a uma das aventuras contra as Criaturas do Reino Abissal. As gerações seguintes a minha foram influenciadas por outros heróis também japoneses.

Neste livro de Fernando Morais é contada a história não apenas da primeira fase da imigração, como também da integração entre japoneses e brasileiros; as assimilações e, principalmente como diz o título, os corações sujos, como eram chamados os japoneses que não se renderam a um pensamento errôneo e equivocado no interior da colônia japonesa que queria impor ao restante que o Japão não perdera a Segunda Guerra Mundial. Pois, o Japão jamais perdera uma guerra. Então como manter a unidade dentro da colônia japonesa se muito já estavam se abrasileirando, tanto que segundo passagens do livro, a integração começou a se dar por dois caminhos bastante diferentes do imaginado. Os japoneses passaram a adorar o jogo do bicho e se tornaram assíduos clientes da prostituição.

Este grupo que não queria acreditar na derrota japonesa criou uma verdadeira máfia e impôs o medo e o terror nos demais imigrantes ao ameaçá-los de morte, escrevendo nos muros ou portas de suas casas a frase “Limpe seu pescoço”, pois eram considerados tão indignos que deveriam limpar o pescoço antes que uma lâmina ritual as cortasse. Algumas pessoas foram mortas e feridas. Este grupo foi diluído e prisões aconteceram.

Hoje, não há moderninho que não coma sushi e sashimi e tome saquê pra tirar uma onda. Coisa do tipo “vamos num japonês”? Eu até como essas iguarias nipônicas, mas não faz parte do meu cardápio cotidiano. E pensar que, ainda lembrando deste livro, os japoneses ao chegarem aqui sentiam engulhos ao ver o que nós comíamos. Era tudo muito gorduroso. Mas nada como o tempo para criar novos hábitos alimentares.

Ao mesmo tempo não podemos negar que um dos maiores filmes de todos os tempos é Os Sete Samurais. Se você não viu, corra pra ver. Depois pegue um bang-bang chamado “Sete Homens e Um Destino” e veja que até os diálogos foram copiados por Hollywood.

A música que usei como introdução a este artigo é do filme “Merry Christmas, Mr. Lawrence”, que aqui no Brasil recebeu o título de “Furyo, em nome da honra” e foi composta por Ryuchi Sakamoto, que interpreta um capitão de um campo de concentração para prisioneiros ingleses e holandeses na ilha de Java durante a Segunda Guerra Mundial e é confrontado pelo Major Jack “Strafer”, interpretado por David Bowie. Vale a pena ver o filme, pois há excelentes interpretações de Tom Conti, como o Coronel Lawrence, aquele que entende a cultura japonesa e se torna o elo que sustenta as tensões entre as culturas ocidental e nipônica, como também do diretor japonês Takeshi Kitano, que interpreta um sargento irascível.

Uma dica importante: não deixe de ver o filme “Gaijin – os caminhos da liberdade”, da diretora Tizuka Yamazaki. É uma verdadeira visão dos primeiros momentos da imigração japonesa.

Ah, sim. Arigatô não deriva de obrigado como todos pensam. Mesmo assim, arigatô.

Veja o álbum de fotografias aqui

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