Deus está no céu, o Rei está na Espanha e aqui mando eu!

Cortez e Malinche

De todos os casos relativos à Conquista e conseqüente colonização das Américas, o mais significativo talvez seja a conquista do México por Hernan Cortez. Dele, retirada de um livro que li durante a graduação, usei como título deste artigo.

La espada, la cruz y el hambre. Outro dia, ao responder a um comentário no blog de um amigo aqui do WordPress, quando comentávamos sobre o polêmico carro alegórico da Viradouro, eu citei esta frase do Pablo Neruda, que é uma constatação do que foi feito por parte do Conquistador em relação aos indígenas do continente americano. Todos, mas absolutamente todos, os nativos sofreram perdas irreparáveis e tiveram suas culturas aniquiladas em nome da ganância econômica.

Bastaram alguns cavalos, pólvora e a aliança com tribos inimigas dos Astecas para que este império, assim como tantos outros baseados no poder teocrático ruísse. Ao decepar a cabeça, isto é, findar com o deus vivo e a classe sacerdotal, que eram os detentores e mantenedores do poder, o restante da sociedade se viu perdida e dominada por um outro senhor, agora, talvez muito mais cruel. Sim, os astecas eram conquistadores e também exigiam tributos e obrigações de seus dominados.

Acredito que a maioria de nós já tenha ouvido falar dos presságios que precederam ao desembarque de Cortez no México, quando a maior coincidência que se tem notícia na história universal aconteceu. Quetzalcoatl, o deus representado por uma serpente emplumada e que afirmou retornar um dia, foi confundido com Cortez e chegou praticamente na hora marcada.

A verdadeira conquista se deu não apenas pela força militar ou econômica, mas também pelo imaginário e pela palavra. Os espanhóis impuseram suas imagens e sua língua, que infere o seu modo de pensar e dominar, além de sua religião e cultura e estas mesmas imagens sacras, impostas por força fragmentaram e apagaram toda organização da estrutura do pensamento dos indígenas. Não foi por outro motivo que, tanto os administradores quanto os religiosos se incumbiram tenazmente em apagar, destruir e calcinar imagens, códices e tudo aquilo que servia como elo de ligação e pilar de sustentação daquela sociedade.

A conquista espanhola na América Latina foi legitimada por essa “guerra de imagens”, associada a destruição da memória. Visto que em sociedades onde a escrita é inexistente ou feita por pictogramas, é através das imagens que se dá toda a sua legitimação, quer religiosa, cultural ou política. A imagem transforma-se em sua memória, pois esta atuava como um referencial para a sociedade asteca, sendo assim, a destruição ou mesmo a transformação dessas imagens, implicará não apenas numa transformação de formas, mas de memória, e do referencial da sociedade. É neste sentido que se dá a conquista e a derrocada do povo mexica.

Leia mais no blog Iconografia Pré-Colombiana, sobre a dissertação de mestrado da professora Luzia Carneiro.

Recanto Galeria03
Ouça algumas músicas sobre o assunto
no Recanto das Palavras – Galeria

Continente Perdido – Ruy Mauryti
Duerme, Duerme Negrito – Mercedes Sosa
Poema 15 (Pablo Neruda) – Mercedes Sosa
Todas las Voces – Mercedes Sosa
El Condor Pasa – Tradicional

Ouça diretamente em seu computador
Insira o link em seu programa de áudio preferido (WMP, iTunes ou Winamp)
http://n90.mediamaster.com:8000/plist/3000127146/jadc01

Continente Perdido (terra de Montezuma)
Composição: Ruy Maurity e José Jorge(1976)

Lua de pau-a-pique, pequeno reino – América
Filho de muitas léguas, bandido, índio – América
És uma palavra solta ou mesmo outra – América
Um batuque de meninos de pé descalço – América

Contam que Montezuma não foi guerreiro nem foi capaz
De defender a terra, o ouro, a prata e muito mais
Nem de calar a boca da Musa branca de sangue azul
Pelos mares nunca dados aos navegantes aqui do sul

Contam do Feiticeiro, rei das províncias, dos Carnavais
Da mula-sem-cabeça nos espetáculos teatrais
Contam das borboletas, do arco-íris, dos temporais
Nesse reino perdido, sumido, dividido demais!

Aqui você vê um vídeo da música Cortez the Killer, do Neil Young

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2 comentários sobre “Deus está no céu, o Rei está na Espanha e aqui mando eu!

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