Análise dos Enredos das Escolas de Samba – Carnaval 2008

Esta é uma análise crítico-humorístico-sarcástica dos delírios e devaneios que algumas escolas de samba apresentarão no Carnaval de 2008; além, é claro, da presença quase arroz de festa da Chegada da Família Real Portuguesa em 1808, que está em vários enredos deste ano. Os que não tratam do assunto diretamente, fazem uso de viagens alucinantes ao passado.

E como 2008 tem efeméride com data redonda em profusão, também há um enredo comemorando os 100 anos da chegada … não, não é da Família Real Portuguesa, mas dos primeiros imigrantes japoneses.

Há enredos de cunho proto-sociológico e até um com características de dissertação de pós-doutorado em História.

Também tem enredo que embola evolução com criacionismo e arranhando em ecologismo.

Não sei por qual motivo me vem à mente o Samba do Crioulo Doido…

As análises estão na ordem do desfile. Imprima para acompanhar o desfile.

São Clemente
Enredo: “O CLEMENTE JOÃO VI NO RIO: A REDESCOBERTA DO BRASIL…”
(“Entrada Régia para Sua Alteza Real D. João VI, de cognome O Clemente, na Corte Cari-Oca da Marquês de Sapucaí, porque Deus é brasileiro, ora pois pois…”
Classificação: Enredo Histórico
Temática: 200 anos da chegada da Família Real ao Brasil
Carnavalesco: Milton Cunha
Crítica: Enredo do carnavalesco doido.

A São Clemente, ao que parece, recebeu um pedido irrecusável do prefeito César Maia para que faça uma entrada triunfal na Sapucaí. Sendo assim, seu carnavalesco foi buscar nas monarquias européias de séculos passados uma forma de falar dos duzentos anos da chegada da Família Real e a entrada triunfal. Em suas pesquisas descobriu que havia uma espécie de entrada, digamos que aos moldes dos triunfos dos generais romanos[*] que desfilavam para o povo após suas campanhas militares vitoriosas. A esta forma de triunfo do século XVIII, deu-se o nome de Entrada Régia e isto será o elo para mostrar que a chegada da Família Real em 1808 foi uma Joyeuse Entrée. Em resumo: um carnaval.

[*] Os generais romanos quando em triunfo por Roma, atrás de si tinham um escravo a lhes dizer nos ouvidos… “Lembra-te que és homem. Cautela, não caias (Cave ne cadas)!” Isto para lembra-los de sua condição humana e, portanto, falha. Certa monarquia européia esqueceu este pedacinho do triunfo em suas Entradas Régias e… conheceu a guilhotina.

Porto da Pedra
Enredo: TEM PAGODE NO MARU – 100 anos de Imigração Japonesa no Brasil
Temática: 100 anos da imigração japonesa no Brasil
Classificação: Enredo Histórico
Carnavalesco: Mario Borrielo
Crítica: Não sei comer usando palitinho

Corremos o risco de ver a comissão de frente ser composta por National Kid, Ultra Man, Ultra Seven, Dr. Gory, Kharas, Lion Man, Spectre Man, Godzila e Phantomas.

Não estão confirmadas as presenças de Speed Racer e nem do Corredor X, que como todos sabem, é seu irmão Rex, que saiu de casa por brigar com seu pai.

Satoru Nakajima, após insistentes pedidos, teve sua carteira de piloto de carro alegórico cassada. A escola não quer correr qualquer risco de perder pontos em harmonia e evolução.

Aproveitando que neste ano também se comemora a chegada do primeiro navio trazendo os primeiros imigrantes japoneses, em 1908, a Porto da Pedra vai falar sobre a presença da cultura, culinária, arte e tudo mais que estiver ligado ao Japão no Brasil.

Salgueiro
Enredo: O RIO DE JANEIRO CONTINUA SENDO …
Temática: Rio de Janeiro
Classificação: Enredo Histórico
Crítica: Uma ponte para se falar da chegada da Família Real Portuguesa.
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lávia

Uma visão histórica da cidade desde a chegada dos primeiros navegadores, em 1502. Logicamente que servindo de mote para falar da chegada da Família Real Portuguesa em 1808 e o que foi feito após este fato como a criação do Jardim Botânico. Também serão retratados alguns bairros como a Praça Mauá, Copacabana, Ipanema e os bairros do subúrbio. O Centro da cidade que tem uma tradição cultural muito forte, contando com a presença da Biblioteca Nacional e a Escola de Belas Artes; que tornaram o Rio de Janeiro o centro cultural do Brasil. Também será retratado.

Portela
Enredo: RECONSTRUINDO A NATUREZA, RECRIANDO A VIDA: O SONHO VIRA REALIDADE
Temática: Natureza/Ecologia/Água
Classificação: Enredo Telúrico
Crítica: Mistura tudo num saco só: evolucionismo, criacionismo, ecologia e defesa da Natureza. Agrada a todos os gostos.

Talvez o carnavalesco tenha se convertido e visto a luz após anos e anos de “perdição” lendo livros de Charles Darwin, Richard Dawkins e, pasme, Nietzsche que afirmava que Deus está morto, além de outros que cismam em provar que a vida surgiu na água e nós viemos dos macacos. Pode ser que membros da TFP estejam entre os ritmistas dando baquetadas em ateus e o Boto Cor de Rosa virá em carro de destaque chorando sua saudade de Jacques Cousteau.

Mangueira
Enredo: 100 anos do Frevo, é de perder o sapato. Recife mandou me chamar
Temática: Cultural/Cultura Popular
Classificação: Enredo Certinho – Politicamente correto
Crítica: Enredo gigantesco que pretende falar, em 80 minutos, sobre uma das mais importantes manifestações populares do Brasil. Em resumo: vai meter os pés pelas mãos.

A apresentação do enredo não merece uma comissão julgadora, mas uma banca examinadora da Sorbonne. Desconfio que tem sociólogo demais andando pelo Buraco Quente.

Viradouro
Enredo: É DE ARREPIAR!
Temática: Furacão, Tornado, Ciclone, Brisa ou Calmaria.
Classificação: Enredo …E o vento levou…
Crítica: Carnavalesco cabeça de vento

Não sei por qual motivo, mas esta escola resolveu falar do vento. Alguém poderia sugerir que tomassem conhecimento de Eolos, o deus dos ventos. Ou que falassem sobre os quatro ventos e até mesmo aquele vento que não tem lá muito bom cheiro. Mas, fazer o que? O negócio é de arrepiar. Leia o detalhe da primeira parte do samba-enredo.

Começou o desfile. Sente o frio?
Esse vento que passa provoca arrepios.
Esfregue as mãos, cubra o corpo, chegue mais perto de mim.
Não deixe que o sangue congele. Se embole, se agite.
Nunca vi nada assim.

Mocidade Independente
Enredo: O QUINTO IMPÉRIO DO BRASIL: “UMA UTOPIA NA HISTÓRIA”
Temática: História (Portugal, Brasil, Chegada da Família Real em 1808)
Classificação: Enredo Histórico
Crítica: Carnavalesco com imaginário pós-doutorado em História pela Universidade de Coimbra

Outro enredo quilométrico, que vai às origens do Condado Portucalense, digo, Portugal para poder cair de cabeça na chegada da Família Real Portuguesa em 1808. O carnavalesco teve a brilhante idéia de falar de toda história de Portugal, seus heróis e seus feitos. D. Afonso Henriques deverá surgir como destaque em algum carro alegórico mostrando como deu o pontapé inicial nesta brilhante história de formar um Império, ainda lá pelos idos do século XII. Um negócio meio megalômano, querendo fazer de Portugal o Império sucessor de outros como a Babilônia, a Pérsia, Roma e Grécia. Percebemos que o conceito de Império é meio que abrangente e pelo visto serviu de balaio de gatos. Mas tudo bem, o que importa é falar que o Brasil seria o local deste Quinto Império. Adivinhe o motivo? BINGO! Isso mesmo… com a já enfadonha chegada da Família Real Portuguesa…

Dizem que a RTP vai transmitir ao vivo para Portugal, pois D. Sebastião, o encantado (sei não… isso está me cheirando a delírio de destaque de carro alegórico), garantiu que vai, finalmente, aparecer e contar que esse negócio de sumir em Alcacer-Quibir é conversa pra boi dormir. Ele foi tirar umas férias com dançarinas do ventre.

Unidos da Tijuca
Enredo: VOU JUNTANDO O QUE EU QUISER, MINHA MANIA VALE OURO.
SOU TIJUCA, TRAGO A ARTE COLECIONANDO O MEU TESOURO.
Temática: A arte de colecionar coisas inúteis
Classificação: Enredo Maníaco-Depressivo
Crítica: Eu Sou o Umbigo do Mundo ou Eu Me Amo. Eu Me Adoro
Carnavalesco: Luis Carlos Bruno

Se você tem alguma coleção, mesmo que seja de palitos de fósforos usados, tenho certeza que apreciará este enredo que fala do “colecionar alguma coisa”. Certamente há quem colecione de tudo, até desafetos para o resto da vida ou vibre com sua coleção de borboletas laqueadas compradas na subida para o Cristo Redentor, um must em termos de coleção, o que é meio brega.

Imperatriz Leopoldinense
Enredo: João e Marias.
Temática: Histórico-Etimológica e… Chegada da Família Real Portuguesa em 1808…
Classificação: Agora eu era o herói e meu cavalo só falava inglês…
Crítica: Risco de confundir a divisão territorial denominada Sesmaria com seis Marias no enredo.
Carnavalesca: Rosa Magalhães

João que era filho de Maria a louca. Luís que amou Maria Antonieta que comeu brioche e perdeu a cabeça. Outra Maria que amou Pedro que amou Domitila a marquesa de Santos e gritou Independência ou Morte e que era filho de João que… Chegada da Família Real Portuguesa em 1808…

Vila Isabel
Enredo: Trabalhadores do Brasil.
Temática: História – Trabalhismo – Carteira Assinada – Estado Novo
Classificação: O Estado Novo foi um verdadeiro paraíso
Crítica: Trabalho não tenho nada. Não saio do miserê…
Carnavalesco: Alex de Souza

Como da última vez que foi campeã, a escola contou com verba pública, mesmo que de um abilolado presidente de país latino-americano, parece que firmaram posição em se ligar ou prantear o poder. Como não há mais discursos para o dia do Trabalhador com a indefectível frase… “Trabalhadores do Brasil (a letra L deve ser bem colada ao palato para ficar parecido com o sotaque de Getúlio Vargas), resolveram colocar na avenida este enredo que lembra as antigas normas da época do DIP (o Doi-Codi do Getúlio) para fazer um enredo ao molde estado-novista.

Só não falam que nossa legislação trabalhista, ainda dos tempos do Estado Novo, teve por base a Carta del Lavoro do Mussolini.

Grande Rio
Enredo: DO VERDE DE COARÍ, VEM MEU GÁS, SAPUCAÍ!
Temática: Amazônia Industrial e Econômica
Classificação:Total Flex
Crítica: Evo, cadê meu gás?
Carnavalesco: Roberto Szaniecki (arqueólogo, paleontólogo e geólogo)

A Amazônia além de ser o pulmão do mundo também solta gases. Quer dizer, em Coari se produz gás e este vai alimentar a indústria nacional. Bacana pra caramba.

Beija-Flor
Enredo: Do Macapaba – Equinócio Solar: viagens fantásticas ao meio do mundo
Temática: Amazônia
Classificação:Viajei na maionese
Crítica: Já não bastava dizer que há inscrições fenícias na Pedra da Gávea…
Carnavalesco: Alexandre Louzada, Fran Sérgio, Laíla e Ubiratan Silva

E como não poderia deixar de ser, a escola que encerra o desfile vem com um samba do crioulo doido em nova roupagem. Agora juntam fenícios com navegadores italianos do século XVI e conquistadores com Tupã.

Tudo isso aconteceu sobre a linha do Equador, em Macapá.

Quem será a campeã?

Technorati Tags: , , , , , , , , ,

Anúncios

5 comentários sobre “Análise dos Enredos das Escolas de Samba – Carnaval 2008

  1. Boa análise! As letras dos sambas sao muito bons,eu dei uma olhada.

    Ah, eu concordo com o que vc disse lá no meu blog. Mexeu com religiao, moral….problema. Ainda há muita censura nessa área (nao condeno todas, algumas sao necessárias, pelo bom senso).

    abraços

    Curtir

  2. gostei muito mas e muito cumprido eu sei que e tudo sobre isso mas reveza um poco mas ta

    bjsss:brenda

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s