Grandes Sambas-Enredo: Os Sertões

Este é considerado de forma quase unânime como o mais belo samba-enredo de todos os tempos. Não apenas pela melodia, mas também a letra retrata fielmente o que pretendia; que era mostrar como se deram os conflitos no Arraial de Canudos, baseado no livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

Sobre o samba
Ano:1976
Compositor: Edeor de Paula
Enredo: Os Sertões

Letra
Marcado pela própria natureza
O Nordeste do meu Brasil
Oh! solitário sertão
De sofrimento e solidão
A terra e seca
Mal se pode cultivar
Morrem as plantas e foge o ar
A vida e triste nesse lugar

Sertanejo e forte
Supera miséria sem fim
Sertanejo homem forte
Dizia o Poeta assim

Foi no século passado
No interior da Bahia
O Homem revoltado com a sorte
do mundo em que vivia
Ocultou-se no sertão
espalhando a rebeldia
Se revoltando contra a lei
Que a sociedade oferecia

Os Jagunços lutaram
Ate o final
Defendendo canudos
Naquela guerra fatal

Para ouvir o samba, faça o download aqui

História

Logo após a proclamação da República, vários grupos se insurgiram contra as mudanças políticas. O novo governo republicano, de cunho militar, precisava garantir sua força e predominância. Entretanto, no interior da Bahia, no Arraial de Canudos, um movimento messiânico liderado por Antonio Conselheiro, foi enxergado como contrário ao republicanismo. Entre 1893 e 1897 foram enviadas tropas para derrotar este movimento, que a princípio estava muito mais preocupado com o latifúndio e os impostos aviltantes do que com a derrubada de um governo recém instaurado, mesmo que não apoiassem a separação jurídica da Igreja e do Estado, o que tornou o Brasil um Estado laico.

E como em regiões miseráveis é propenso acontecer, anunciou-se a volta do Messias, que acabaria com todas as injustiças e até promoveria uma reforma agrária, liberando terras para os sertanejos subjugados pelos caciques políticos locais; os coronéis e os latifundiários. A escravidão havia sido abolida há muito pouco tempo. O modus operandi escravocrata ainda se fazia perceber vivamente. Além, é claro, a concentração da riqueza e recursos nas mãos de poucos.

Os poderosos locais criaram e mitificaram como sendo anti republicano, tanto o movimento, como Antonio Conselheiro e seus seguidores. Cada vez mais aumentava o número de pessoas que se dirigiam para a região em busca de condições para sobreviver. Tamanha foi a campanha que a opinião pública passou a exigir o fim desta, digamos, comunidade socialista.

Três vezes o exército brasileiro foi derrotado pelos sertanejos, que usavam táticas de guerrilha para se defenderem. Estas derrotas levaram o medo ao restante do país. Por este motivo, a serviço do jornal O Estado de São Paulo, Euclides da Cunha (1866-1909), foi enviado para cobrir o conflito, daí surgindo o livro Os Sertões, que serviu de base para o enredo para o Grêmio Recreativo Escola de Samba Em Cima da Hora.

Ao final, após árduas batalhas, Antonio Conselheiro e seus seguidores foram trucidados. Estimaram que foram mortas 25 mil pessoas.

Alguns fatos curiosos sobre o tema

– Mesmo com este samba belíssimo a Em Cima da Hora foi rebaixada. Hoje amarga uma posição de quase esquecimento, no grupo C do Carnaval Carioca.

– Euclides da Cunha publicou o livro em 1902. Anos depois foi assassinado pelo amante de sua mulher, no bairro da Piedade (RJ)

– Os Sertões pode ser considerado um trabalho jornalístico, etnográfico, histórico e geográfico.

– A palavra favela, que hoje denomina qualquer aglomerado de habitações em encostas ou áreas urbanas carentes e pobres, é a denominação de uma planta que nomeava um morro na região de canudos, o Morro da Favela.

– Uma frase enigmática de Antonio Conselheiro é dita até hoje e, como estamos percebendo, parece que vai acontecer. O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão.

– Carlinhos de Jesus, hoje na Mangueira, foi considerado o melhor passista de escola de samba quando ainda desfilava pela Em Cima da Hora.

– A Em Cima da Hora ainda tem outro samba antológico, O Saber Poético da Literatura de Cordel, de 1973.

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11 comentários sobre “Grandes Sambas-Enredo: Os Sertões

  1. Poxa Jorge

    Parabéns pelo texto, foi uma aula de história bem gostosa!

    um beijo baiano!!

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  2. O próprio samba traduz a História, mas o seu toque d observação complementou mt bem.
    Valeu!!!
    Aliás, sempre vale dar uma espiadinha aqui…rsrsrs

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  3. Edeor de Paula compôs A OBRA PRIMA dos sambas de enrêdo do carnaval carioca.
    Foi emocionante ouvir o samba da Em Cima da Hora orquestrado pela Sinfônica do Teatro Municipal do RJ. Nos meus 67 anos de vida, nunca ouvi e creio que jamais ouvirei samba de enrêdo tão clássico e perfeito em letra, harmonia e fundamento histórico.

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  4. seria uma otima ideia colocar a gravaçao original dos sambas enredos para maior ilustração, para aqueles que estão interessados.

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  5. Navegando pela internet atrás de informação dessa pérola, cheguei até aqui, e tenho o prazer de receber uma autêntica aula da mais autêntica História do Brasil. Obrigado!
    Quanto ao compositor Edeor de Paula, encontrei a informação de que ele vive como porteiro de um prédio, no Rio, até coloquei esse dado no meu blog, mas, não tenho certeza se é verdadeiro.
    E, quando puder, dê uma passada no meu blog, ok?
    Um bom carnaval!

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