Eu e os aviões: lembranças da infância

Morei em um bairro de subúrbio, mas ao mesmo tempo em que estava longe das áreas nobres da minha cidade, encontrava-me estranhamente próximo do restante do mundo.Em dias nublados ou de chuva, os aviões de carreira passavam tão baixo que quase podíamos ver quem estava lá dentro e pedir para nos trazer alguma coisa de sua viagem à Europa ou Estados Unidos.

As aeronaves vistas por mim eram como imensas baleias com seu corpo alongado. Sentia-me como se fosse um simples molusco a observar o abdome do monstro marinho que passa por sobre sua cabeça. Os jatos, estes sim, enormes monstros de metal; rugiam, brilhavam, enfumaçavam deixando atrás de si um rastro negro-azulado que mais parece um véu ou esteira de um transatlântico. As suas luzes piscando compassadamente, quando por aqui passavam em sua rota atlântica noturna, lembravam um enfeite natalino. Eram luzes azuis, verdes, vermelhas. Imagino que cada uma delas tenha um significado específico para aqueles que entendem da arte de navegar o ar.

Como é que pode tamanha quantidade de metal flutuar, fazer manobras, subir, descer sem ao menos um ponto de apoio? Ora, nada mais é que o engenho da mente humana levado a um dos seus melhores exemplos.

Não eram apenas os aviões de carreira que passavam por sobre minha casa. Os aviões militares também o faziam. Morava perto de uma base aérea e quando era um menino de calças curtas, meu pai levava a mim e meu irmão mais novo para vermos estes aviões que, graças a Deus, nunca lançaram uma bomba. Quando a cidade era menos barulhenta era possível ouvir bem cedo, pela manhã, os motores dos mastodontes pintados com aquela pintura camuflada. Era justamente a hora em que saíamos para ir à escola.

Na verdade, gostávamos de ver bem de pertinho os pára-quedistas. Ainda não havia sido construído o enorme muro de concreto que hoje impede a visão dos transeuntes e motoristas da pista da base e o campo de aterrissagem dos pára-quedistas. Meu irmão mais novo dizia que eles eram “cocô de avião”, pois saíam da parte traseira de um Hércules C130.

Outra lembrança que tenho de aviões na infância era quando meu pai levava-nos para o Santos Dumont. Era uma coisa meio dolorosa. O barulho dos motores ensurdecia os nossos ouvidos, mas mesmo assim gostávamos de tudo. Ficávamos no restaurante, o mais próximo possível da sacada que permitia a visão completa da pista, tendo como fundo a famosa ilha de Villegangnon e a Baía da Guanabara. Tínhamos medo que o Electra batesse no Pão de Açúcar quando levantava vôo, mas no último momento, como se fosse um ás, o piloto fazia uma curva e desviava do morro.

O dia de maior emoção foi quando anunciaram a última viagem do Concorde ao Rio de Janeiro. Eu e meus amigos ficamos olhando para o céu no horário habitual de passagem da enorme garça de metal. Era lindo ver aquele jato. Parecia com os aviõezinhos de papel que tanto fazíamos na sala de aula. Totalmente branco contra o céu azul que naquele dia estava especialmente mais azul. O Concorde foi embora. Esporadicamente voltou quando alguns milionários resolveram fretá-lo para vir ao Rio de Janeiro e depois voar pelo restante do Brasil.

Em referência ao assunto, Elis Regina cantando “Conversando no Bar”, de Milton Nascimento e Fernando Brandt.

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Um comentário sobre “Eu e os aviões: lembranças da infância

  1. As nossas paixões de infância, tantas recordações, nunca tive fascínio por aviões, até porque não morei perto de aeroportos, entretanto na adolescência vi muitos e sempre parava para visualizá-los melhor, são realmente muito lindos!

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