QUINHENTOS E OITO ANOS DE CARNAVAL

Já estava escrito há 508 anos: No Brasil tudo acabaria em Samba, ou melhor, em Carnaval. Basta lembrar que em todos os lugares do país as festas populares, em 2000, tiveram como tema principal os 500 anos de Descobrimento (Achamento para os irmãos portugueses). Se é descobrimento, achamento ou tomada de posse é uma discussão para os acadêmicos. Para o povo, quem descobriu foi Cabral mesmo que saibamos que antes houve outro português, ou um espanhol. Alguns até falam em Vikings e Fenícios. Parece até samba do crioulo doido. O que é bem apropriado para a época. Agora o tema serão os 200 anos da chegada da Família Real Portuguesa, que se mandou de Lisboa com medo das tropas napoleônicas. Quem se deu bem com tudo isso foram os ingleses, que tiveram mais um lugar para escoar sua produção industrial. Até patins de gelo andamos importando nesta época. Uma beleza só!

Dentro de mais algumas semanas começará a festa popular mais esperada pelo povo brasileiro, o Carnaval. Momento em que a condição social é nivelada. O rico se mistura com o pobre e os pobres têm um pouco mais de 15 minutos de igualdade com os poderosos e cheios de grana. Até mesmo a psicanálise pode ter no carnaval um excelente objeto de estudo. Eros e Tânatos pra tudo quanto é lado. Libido e desejo a flor da pele y otras cositas más. Vários livros e teses de Ciências Sociais foram escritos sobre o assunto. É um excelente campo de pesquisas para se entender o brasileiro.

Uma das coisas que eu mais gostava de ver, e espero que este ano tenha bastante, eram aquelas pessoas que mal tinham dentes na boca, vestidas como nobres portugueses a tocar tamborim, usando sapatos estilo Luís alguma coisa e perucas brancas. É ou não é uma igualdade social? Nem a Revolução Francesa conseguiu tanto. Se bem que a diferença básica, digamos, era a cabeça. Na França os nobres ficaram sem a cabeça e aqui os sambistas de antigamente tinham que bater o tamborim na altura do rosto para que a polícia não os identificassem e levassem para passar alguns dias vendo o sol nascer quadrado.

Na verdade, o carnaval do Brasil é único. Dizem que o que mais se aproxima do nosso, mas bem longe, é o de New Orleans. Também, né? A região foi colonizada pelos franceses e por lá os negros chegavam como escravos para trabalhar nos algodoais, no sistema conhecido como Plantation, que consistia em latifúndio, monocultura, trabalho escravo, exportação.

Desde os entrudos, a antiga manifestação carnavalesca em que os foliões atiravam água, farinha, tinta, ovos etc. uns nos outros e, às vezes, se davam vassouradas, que os portugueses trouxeram em meados do século 19, e foram as origens da nossa festa, que temos este espírito mais livre. Até D. Pedro II provou ser um grande folião ao ser jogado num tanque de água e o pobre do Grandjean de Montigny morreu em decorrência de uma inflamação na pleura, depois de ter se esbaldado num entrudo em 1850. Tudo isso de carnaval remonta a Grécia e Roma antigas, com as saturnálias e dionisíacas, as festas populares mais liberais do período Clássico.

Mesmo que tenham chegado aqui numa quarta-feira (22/4), na semana da Páscoa, os portugueses já vieram fantasiados e os índios deram o toque de liberdade. Até o Caminha falou que eles estavam com as vergonhas de fora. Logo depois trouxeram o negro da África e a receita para o Carnaval ficou pronta.

E como não poderia deixar de ser, uma música para ilustrar o artigo. Desta vez é um clássico, de Pedro Caetano (a rapaziada precisa redescobrir este compositor), na voz de Elis Regina. É com esse que eu vou.

A gravura que ilustra este artigo retrata Delegado, mestre-sala da Mangueira, no traço inconfundível do Lan.

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2 comentários sobre “QUINHENTOS E OITO ANOS DE CARNAVAL

  1. Oi Nailene.

    Muito bacana este seu trabalho. Seria legal você o apresentar para todos nós depois de pronto e ter conseguido nota máxima.

    Grande abraço.

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