RARÁ UMA PFIPA! RARÁ UMA PFIPA!

Ser criado em subúrbio no Rio de Janeiro, sinceramente, foi algo especial. Não trocaria este tempo por nada. Tempo de aprendizados, tanto de vida quanto de malícia. De fazer traquinagens e aprender a soltar pipa, rodar pião, jogar bola em campo de terra batida e fazer amizades que, se não foram para o resto da vida, ao menos marcaram esta primeira fase da vida.

Não vou dizer que foi melhor ou pior do que ter nascido e ter sido criado em outro lugar onde quer que seja. Digo apenas que havia mais espaço, mais liberdade e mais alegria. No espaço do subúrbio não havia lugar para os que têm mais ou menos. Todos tinham o mesmo. Não éramos ricos nem pobres. Mas, algumas coisas que aconteciam até poderiam evidenciar algumas diferenças, digamos econômicas, como no dia em que o Rará-Rará disse que comera no almoço um prato começado com “fê”.

Rará-Rará, apelido que colocamos quando ele, um guri magrinho e baixinho foi morar lá na rua, e assim que começou a se enturmar soltou um brado ao ver uma pipa voada cheia de linha: “RARÁ UMA PFIPA! RARÁ UMA PFIPA!”. Ninguém correu atrás da pipa. Não entendemos nada! Ele era fanho. Sim, isso mesmo, fanho. Depois que paramos de rir, ele nos explicou que não era fanho, mas que tinha duas campainhas (úvulas). Fato comprovado por todos nós quando ele abriu a boca e colocou a língua pra fora para mostrar que, realmente, tinha duas campainhas. Com o tempo conseguimos entender o que ele falava e passamos a correr atrás das pipas voadas que ele, aos pulos, anunciava. Nunca mais foi chamado por outro nome que não fosse Rará-Rará.

Um dia desses em que as férias escolares demoravam a passar, sentados na esquina batendo papo à noite, o que ainda era possível se fazer no Rio de Janeiro sem que tivéssemos que prestar atenção as tais balas perdidas e demais fatos que só fazem aumentar o índice de violência na Cidade Maravilhosa, combinávamos o que fazer no dia seguinte e, não sei por qual motivo, alguém falou em comida e o Rará mandou a seguinte pérola:

– Hoje eu comi uma comida que começa com “fê”. (aqui eu me dou ao trabalho de traduzir do fanhês para o Português, ok?)

– Foi feijão, Rará?

– Não…

– Feijoada?

– Não…

Um mais afoito mandou:

– Farofa?

E recebe uma doce resposta de um outro do grupo:

– Ô, sua besta! Farofa não começa com fê. Farofa começa com fá!

– Rará, o que foi que tu comeu?

– “mm…fê”

– Bife?

– hum hum…

– Rará, bife não começa com fê. Só se for na tua língua!

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3 comentários sobre “RARÁ UMA PFIPA! RARÁ UMA PFIPA!

  1. bons tempos estes da nossa infância, eu tive bons 8 anos de correr na rua, jogar bola, soltar pipas, jogar bolitas, descer lombas de carrinho de rolimã e acima de tudo ficar na rua até tarde da noite, principalmente no verão quando nossos vizinhos colocavam as cadeiras nas calçadas e apenas conversavam até os assuntos acabarem.

    casas abertas, jardins sem grades, sem balas perdidas, sem assaltos…. aí que saudades que eu tenho da aurora da minha vida …..

    passado, lembrança e esperança de um mundo melhor

    abraços

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  2. Pois é. Também tenho saudade destes tempos, digamos, inocentes. O que vale é que temos estas boas lembranças.

    Quanto ao Rará-Rará, eu nunca mais o vi.

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