Não dançaram mais

Quando entrei na faculdade meus horários e hábitos mudaram. Quer dizer, não que eu fosse um cdf, mas tive que gradativamente ir mudando o horário em que estudava em casa. Nunca tive essas coisas de não ler com barulho por perto ou me incomodar se tocasse uma música enquanto estivesse lendo. Por sinal, a música, não importando qual o estilo, sempre acompanhou o que faço; exceção apenas aos terríveis estilos musicais que atendem pelo nome de Pagode Mauricinho, Breganejo, Axé e seus congêneres; realmente nunca seduziram meus ouvidos.

O pagode mauricinho é aquele em que um cantor apresenta as agruras de ter sido colocado para escanteio ou a sua amada não lhe dá a menor bola, e um bando formado por cinco ou seis supostos ritmistas faz evoluções com passo marcado ao fundo. Todos, mas todos mesmo, usando óculos escuros no alto da cabeça como se fossem tiaras. Pavoroso!

O breganejo é aquele arremedo de country music lá dos comedores de hamburguer, cujo gestual e indumentária é cópia fiel e, pasme, tem um ponto em comum com o pagode mauricinho. Todos, mas todos mesmo também, cantam as dores relativas ao momento em que uma beldade tirou-lhes o chapéu de cowboy, que é parte integrante do guarda-roupa, e aplicou-lhe um doloridíssimo chapéu de touro. Em resumo: não importa o estilo, o chifre é traço comum.

Não os incomodarei falando de axé e congêneres. Ah, é? Quer dizer que gosta de “POEEEEEEEIRA a-a! POEEEEEIRA! LEVANTOU POEIRA!” ?

Bom, retornando ao assunto, lá estava eu estudando em plena madrugada. A casa estava silenciosa, a que não estava era a casa do vizinho. Acontecia uma festa daquelas onde o som beirava o ensurdecedor e as vozes das pessoas, que gritavam para conversar, se misturavam e chegavam até meus ouvidos. Até aí tudo bem. Eu não ligo mesmo para essas coisas de barulho enquanto leio.

Por conta disso, por vezes é possível ter noção do que acontece ao redor e parei de ler um tiquinho de nada quando tocou I don´t wanna dance, um reggae maneiro com o Eddy Grant. Nessa época, início dos anos 80, o reggae e outros ritmos jamaicanos chegaram por aqui, tanto que o Paralamas do Sucesso, em seu início, era um grupo de Ska, uma variante do Reggae. Ah, sim. Numa das viagens de meu irmão mais velho ao exterior, alguns anos antes, ele trouxera um compacto simples do Eric Clapton, que acabara de gravar I Shot The Sherrif, do Bob Marley. O quê? Não sabe como explicar para seu neto o que é compacto simples? Diga que era um CD preto e que precisava ficar fora do tocador de CD (vitrolinha, ok?) para ouvir a música. Ele não sabe o que é CD? Então diga que era um pen drive circular.

Estava lá eu curtindo o som e, quando o Eddy Grant manda pela segunda vez I don´t wanna dance… ouço um VAMOS ACABAR COM ESSA BAGUNÇA!!! E a música… Dance with baby no more…. AAAAAAAAAAAAAI!!! CRASH, ZEENG, POW (lembrei do Batman da televisão) e um som de madeira quebrando… I´ll never do something to hurt… PAAAAI, ERA SÓ UMA FESTINHA (A voz da vizinha) chorosamente berrava a filha do VAMOS ACABAR COM ESSA BAGUNÇA, que acabara de chegar não sei de onde e viu a casa toda revirada, guimbas de cigarro por todo lado e, se bobear, até o pingüim da geladeira fora do lugar.

Realmente ninguém dançou mais naquela noite.

Curta I don´t wanna dance agora.

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