Ser Botafoguense: uma história de arquibancadas

Não, vocês não sabem o que é ser botafoguense. Somente o grupo de loucos, digo, apaixonados que torcem por este clube sabem o que é ser conduzido pela Estrela Solitária. Por isso, e se a minha memória ajudar, contarei algumas passagens vividas por mim em campos de futebol e no coração.

Houve tempo, que não queremos lembrar, mas que a história registrou, no qual a venerada camisa 7 vestiu jogadores que não a honraram, não por própria culpa, mas por uma fatalidade do destino. Desde meados da década de 70 até o festejado 21 de junho de 1989, passamos por penúrias, humilhações e momentos de incerteza; porém, jamais deixamos de acreditar que um dia chegaríamos lá. Sendo assim, idilicamente idolatrávamos o time bicampeão de 1967/68. Era uma verdadeira Seleção Brasileira.

Em uma tarde de domingo, não lembro o ano, mas sei que foi nos fins dos anos 70 e início dos anos 80 estava eu nas hoje antigas arquibancadas de concreto armado do Maracanã. Contava 18 anos de idade e jamais havia visto o Botafogo ser campeão. Também não lembro qual era o jogo. Lembro, sim, que o ataque do Botafogo era o que chamávamos na época de “ataque cardíaco”. Só dava desgostos aos nossos corações. Vejam qual foi um dos trios de atacantes: Cremilson, Puruca e Tiquinho. Uma tristeza de dar dó. Pra completar, na lateral direita o inominável Perivaldo, o Peri da Pituba, que era incapaz de acertar um cruzamento sequer para dentro da grande área adversária.

O primeiro tempo foi sofrível. Todos nós por pouco não tivemos uns três ataques cardíacos ao ver o referido trio não conseguir jogar bola. Ao findar o primeiro tempo, ouço uma série de soluços, diria mesmo que pareciam lamentos. Achei estranho. E os soluços de choro continuavam. Vez ou outra paravam e logo em seguida continuavam…

Comecei a procurar de onde viria este som, e ao virar-me para trás, vejo um homem de uns 40/45 anos segurando um envelope de papel pardo do tamanho que cabia uma folha de papel A4. Era ele quem chorava. Abria o envelope, retirava algo lá de dentro, suspirava e começava a chorar. Fez isso umas três vezes antes que eu me aproximasse para saber o que estava acontecendo.

Eu imaginei que poderia ser um atestado de óbito, um documento atestando a separação da mulher amada, um resultado de exame que lhe dera alguns dias de vida… Ao chegar perto…

– Amigo, está passando mal?

– Não… (de cabeça baixa e segurando o envelope).

– Aconteceu alguma coisa?

– Também não… (e o envelope fechado)

Eu estava curioso para saber o que havia ali dentro. Sem que eu pedisse, ele abriu o envelope e me mostrou o motivo de seu pranto…

– Olha… olha só….

Ao ver o que era, eu não sabia se ria, chorava ou ficava solidário.

Era uma foto. A foto do time de 1968. Metade deste time e mais o técnico trouxeram a Taça Jules Rimet para o Brasil em 1970.

Ele a olhava e certamente se lembrava dos dias de alegria, começava a soluçar e chorar. Observava por uns tempos e a guardava novamente no envelope.

Eu o deixei só e voltei para o meu lugar e fiquei pensando: Caramba, eu não vi esses caras jogarem… o que será que eu perdi?

Eis o time Bi-Campeão de 1968.

Este texto, de minha autoria, foi aproveitado por Luís Pimentel no livro “Piadas de Sacanear Botafoguense (para alegria de flamenguista, vascaíno e tricolor)“, editado em parceria pelas editoras Mauad e Mirra.

Leia uma crônica do Nelson Rodrigues sobre o “ser botafoguense

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4 comentários sobre “Ser Botafoguense: uma história de arquibancadas

  1. Nao temos a maior torcida , nao temos o melhor time , nao temos o maior numero de titulos , mais somos a torcida mais apaixonada.
    Momentos ruins nos ja vivemos , mais nunca paramos de cantar , i esse povo no nosso peito nunca vai se apagar ……

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  2. Estou procurando me contactar con Jair. Você pode me colaborar? O brigada.
    Español: ¿Me podríais ayudar a encontrar el e-mail de Jairziho, por favor? El jugó en Bolivia, y ainda estamos esperando que se acuerde de sus amigos de entonces (1980-81). Gracias, es urgente, por favor si se contactan con él díganle que lo estamos procurando.Y le mandamos muchas bienaventuranzas.
    Atte.
    Rosse Marie Caballero
    Escritora cochabambina

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