Palavras… algumas

Minha pátria é minha língua.

Há palavras da língua portuguesa que para serem ditas, antes é preciso analisar o sentido da frase e o contexto em que está inserida. Tudo isto deve ser feito em frações de segundos para que não pensem ou entendam de forma equivocada aquilo que você pretendia dizer.

Não é aconselhável sair por aí dizendo “Eu dei…”, sem que se diga que viu um mendigo pedindo esmolas. Rapidamente você deve completar a frase com um sonoro DEZ REAIS! Outra coisa embaraçosa; lógico que dependendo do clima, pois no inverno poderá soar diferente, é a frase “Eu chupei…”. Se você não emendar logo que foi um Chicabon, certamente o pessoal vai achar que…

E, ao se lembrar da infância querida que os anos não trazem mais, diga que antes de “trepar” você tinha uma goiabeira no quintal e vivia trepando na árvore para se fartar com a deliciosa fruta.

Tudo isto porque eu li no Jornal da Ciência o artigo no qual os pesquisadores afirmam que, quanto mais falamos determinada palavra, menos ela corre o risco de perder o som original. Isto é, não têm o som alterado. O grande balaio de gatos que é o tronco lingüístico indo-europeu, que originou a maioria das línguas ocidentais e também o sânscrito tem algumas palavras que pouco perderam o som e o significado original como a palavra que define o algarismo “dois” e o pronome pessoal “eu”. Foram estudadas 87 línguas, entre elas o Português, que como todos sabemos é a última flor do Lácio, filhote do Latim assim como o Espanhol, Francês, Italiano, Romeno entre outras. Até mesmo aquele dialeto anglo-saxão foi elevado à categoria de língua culta após a adição de 50% de palavras da língua dos romanos em seu vocabulário.

Quanto à nossa língua portuguesa, ela é tão interessante que podemos nos confundir várias vezes com o som idêntico para grafias diferentes como, por exemplo a lista abaixo:

Cesta = utensílio de vime, etc.
Sexta = ordinal referente a seis.

Cheque = papel com ordem de pagamento
Xeque = lance no jogo de xadrez, ex-soberano da ex-Pérsia (atual Irã), perigo

Cocho = vasilha, recipiente onde se colocam alimentos ou água, para animais
Coxo = que manca de uma perna

Concerto = harmonia, acordo, espetáculo
Conserto = ato de consertar, remendar

Coser = costurar
Cozer = cozinhar

Empoçar = formar poça
Empossar = dar posse a

Intercessão = ato de interceder
Interseção = ponto onde duas linhas se cruzam

Ruço = pardacento, cimento; alourado
Russo = relativo a Rússia

Tacha = pequeno prego, tacho grande
Taxa = imposto, juros.

Tachar = censurar
Taxar = regular, determinar a taxa

Abaixo estão a letra e o vídeo de “Língua”, de Caetano Veloso e o poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac.

Língua
Caetano Veloso

Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem

Língua Portuguesa
Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

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