O Homem do FEBEAPÁ

Semana passada, no sábado, eu estava lendo alguns jornais na Internet. Este é um hábito que mantenho desde os primórdios desse treco de jornais e revistas virtuais. De vez em quando me deparo com notas dignas de um FEBEAPÁ, como a de uma colunista de um grande jornal aqui do Rio de Janeiro e autora de livros que supostamente ensinam etiqueta social, dizer que a festa de abertura do Pan 2007 estava muito africana. Fiquei pensando sobre uma coisa: onde foi que ela nasceu? Em que país nós estamos? Pelo visto, para ela, a festa deveria lembrar algo próximo ao Lago Zurique ou a 5ª. Avenida, por exemplo.

Para quem não sabe, a sigla FEBEAPÁ foi criado por Sérgio (Stanislaw Ponte Preta) Porto, um grande jornalista que morreu em 1968, e significa Festival de Besteira que Assola o País. Isto foi motivado pelo fato de as autoridades da época, a década de 1960, mais precisamente a partir de 1964, que podemos considerar “otoridades” devido a enorme quantidade de bobagens que falavam ou escreviam. O Stanislaw, através de sua fictícia agência de notícias, a Pretapress, pinçava essas barbaridades e sempre as apresentava em sua coluna no jornal. As sandices eram tantas que, mesmo sem saber precisar quando as besteiras começaram a assolar o país, percebeu que cresceram em número absurdo a partir da Redentora, o apelido dado ao golpe militar de 1964. Este alastramento foi detectado a partir do momento em que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que o filho tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo tratar-se de um debilóide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista.

Vejamos algumas das bobagens que aconteciam. Enfim, um enorme manancial para o nosso cronista social:

1 – No mesmo dia em que o governo resolvia intervir em todos os sindicatos, resolvia mandar uma delegação à 16a. Sessão do Conselho de Administração da OIT, em Genebra. Ao Brasil caberia exatamente fazer parte da Comissão de Liberdade Sindical.

2 – Na mesma ocasião, um time da Alemanha Oriental vinha disputar alguns jogos aqui e então o Itamarati distribuiu uma nota avisando que eles só jogariam se a partida não tivesse cunho político.

3 – Em Mariana, MG, um delegado de polícia proibia casais de se sentarem juntos na única praça namorável da cidade, baixando portaria dizendo que moça só podia ir ao cinema com atestado dos pais.

4 – Em Belo Horizonte, um outro delegado distribuía espiões pelas arquibancadas dos estádios. Dali em diante quem dissesse mais de três palavrões ia preso.”

Outras frases e idéias do Sergio Porto foram tão marcantes que ficaram no inconsciente coletivo dos brasileiros. Um sinônimo para confusão passou a ser nada mais que um samba do crioulo doido, nome dado a um samba por ele composto, em crítica irônica a um antigo decreto governamental, dos tempos de outra ditadura, a de Getúlio Vargas, o qual obrigava os compositores a criarem sambas sempre de cunho histórico e o motivo sendo a história do Brasil. Segundo consta, o crioulo compositor ficou tão embaralhado com uma tal de atual conjuntura que misturou tudo na letra da música, a seguir:

SAMBA DO CRIOULO DOIDO
Composição: Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina
Arresolveu se casá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com tiradentes
Lá iá lá iá lá ia
O bode que deu vou te contar
Lá iá lá iá lá iá
O bode que deu vou te contar
Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão
E foi proclamada a escravidão
Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
Da. Leopoldina virou trem
E D. Pedro é uma estação também
O, ô , ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou

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