Minha Alma Canta

A primeira vez que surgiu em registros foi no início do século XVI, quando navegadores portugueses entraram pela Baía de Guanabara. A versão corrente para o nome é que, por estarem em janeiro, e para os bravos navegadores a baía parecer a foz de um rio, denominaram a localidade como sendo o Rio de Janeiro. Há, porém, uma outra versão, esta de filólogos e lingüistas, que propõem a palavra “rio” ser derivada de ria, uma tradução da época do descobrimento e que significa fiord, aqueles paredões de pedra que cercam cursos d’água na Escandinávia.

A violência, hoje tão propalada, é um caso histórico. Por aqui andaram se estapeando portugueses, os peiró, para os índios, e os franceses, os mair, também para os nossos índios; que disputavam a posse do território. Uns queriam defender o que era seu e outros queriam fundar a famosa França Antártica, ali pela altura da enseada de Botafogo. Várias foram as tentativas dos franceses de se estabelecerem por aqui. Vejamos os nomes dos fabricantes de champanhe que tentaram morar aqui: Villegagnon, Du Clerc e Du Guay-Troin. Deles, só o primeiro mereceu respeito – os outros dois eram piratas – e recebeu como homenagem o direito de dar nome a ilha que está ao lado da pista do aeroporto Santos Dumont. Pela língua que falamos é possível perceber quem acabou ganhando. E, ao fundar a cidade, Estácio de Sá (bairro e escola de samba), em homenagem ao Rei de Portugal, D. Sebastião; que até hoje os portugueses esperam voltar de Alcácer-Quibir, deu o nome de Muy Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Daqui, o Brasil foi governado nos três regimes políticos desde 1763 até 1960, quando nos tornamos e deixamos de ser a capital. Por isso a cidade e seu povo são cosmopolitas. Insulto maior a um carioca é chamá-lo de bairrista. Conheci um holandês, o Otto, que ao chegar aqui só queria aprender a fazer uma coisa: caipirinha. O cara era filho de um empresário bambambam lá na terra dele, mas só queria saber de açúcar – engraçado como os holandeses, açúcar e Brasil têm alguma coisa a ver – limão e cachaça. Outro gringo que conheci foi o Joe Hunter, um norte-americano de Chicago que endoidou quando o levei a um terreiro de candomblé. Só fazia repetir “brazilian voodoo… brazilian voodoo”. Se eu o levasse uma segunda vez, fatalmente bolaria para algum santo.

A primeira vez que eu vi o Rio de Janeiro lá de cima, me desculpem os amigos da terra da garoa, foi numa volta desta acinzentada cidade. A ida foi de noite e não sentei na poltrona próxima a janela. Vocês não sabem o que é a disputa pelas poltronas que ficam ao lado das janelinhas que possibilitam ver a cidade lá de cima na hora de marcar a passagem. Aqui vai uma dica: se o dia estiver límpido, o avião levanta vôo em direção ao Pão de Açúcar e antes de chegar no morro, faz uma curva acentuada para a direita e aí você verá toda a orla até a Restinga da Marambaia, esta restinga até ganhou música do um paulistano (Eu tenho uma casinha lá na Marambaia/Fica na beira da praia/Só vendo que beleza). Portanto, os melhores lugares estão do lado direito do avião. Se o avião levanta vôo em direção a Ponte Rio-Niterói, a coisa já fica um pouco mais complicada, pois ele pode fazer a curva para a esquerda ou direita, dependendo da rota que foi traçada. Sugiro que tentem saber para que lado ele vai antes de embarcar.

Não sei se vocês já tiveram esta visão, mas com toda certeza do mundo, quando a tiverem, em seu íntimo virá surgindo devagar, mas bem devagar, a primeira estrofe do Samba do Avião, do Tom Jobim. E, por mais carioca que você não queira ser, pois você o é, mesmo não tendo nascido aqui, sua mente reproduzirá a melodia e você se pegará cantando… Minha alma canta/vejo o Rio de Janeiro… Eu soube de histórias em que grupos de gringos até aplaudiam ao verem a cidade lá de cima e cantavam a música em uníssono.

Outra coisa extremante interessante é participar de baile carnavalesco em outros lugares que não o Rio de Janeiro e, ao findar, a bandinha sempre tocar Cidade Maravilhosa como se faz aqui, para indicar que o baile acabou.

Então, para não deixarmos incompleto este artigo, o Samba do Avião completinho para vocês. Apreciem.

 

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