Tarde de Verão – 2003

Hoje, pela janela da sala, era possível ver o jogo de sombras e claridade que disputavam cada nesga de espaço do alpendre ao chão.

Os tons das folhas que iam do verde iluminado ao verde sombreado misturavam-se aos matizes da rosa realçados ou esmaecidos pelo Sol. Era fim de tarde, início de noite. Todos gostam do crepúsculo. Talvez à beira-mar ou no sopé de uma montanha. O que importa, na verdade, é que só em nossas mentes as paisagens e momentos têm algum significado.

Prefiro ainda este que estou apreciando e sentindo. É um sopro de natureza! Uma abelha entrou pela janela. Pequenino ponto negro a voar em rota direta e indireta em busca do pólen. Talvez tenha confundido os brilhos coloridos da tardia árvore de Natal no canto da saleta.

Deitado no sofá vi o pontinho negro passar e ao se aproximar das guirlandas e bolas de vidro colorido, quase imediatamente retroceder. Será que se espantou com sua própria visão distorcida no reflexo vermelho? Ela enxerga cores? Que enxergue ou não, que importância tem isto? Observei seu vôo zunido. Aturdida talvez. Porém, ávida em completar sua tarefa.

Pensei sobre as tarefas que temos que desempenhar durante nossos dias e vidas. Algumas são muito chatas e outras prazerosas e que se tornam o oposto uma da outra. Uma levando a outra. Nos extremos dessa linha, prazer e gozo encontram o equilíbrio. Ir ao supermercado é algo penoso. Saborear o que de lá trouxemos para nos alimentar é o gozo do paladar, a satisfação da fome. Pagar contas é torturante. Comprar objetos do desejo é sublime.

A minha amiga abelha voava cada vez mais desnorteada pelo espaço da saleta. Algumas vezes encarou-me e deu guinadas para desviar de mim. Temi levar uma ferroada. Olhei pela janela aberta e novamente vi a roseira e pensei na beleza das rosas, mas também na dor que elas podem nos proporcionar quando os espinhos da roseira ferem nossa pele. É a sua forma de proteção contra os intrusos maiores que a abelha que zunia próxima a mim. E logo nós, aqueles que inventamos palavras para falar da beleza das rosas e flores, somos os que se ferem ao contato com elas. Entretanto, não haverá dor maior que a rosa desprezada pela amada. Dói lá no fundo da alma ver a rosa jogada ao chão, deixada cair por mão insensível e que será pisoteada por transeuntes ou despetalada pelo vento, esmagando e dispersando suas pétalas como se cada palavra de amor fosse desfeita de suas sílabas, e assim, o seu significado. Apenas os insensíveis têm tal capacidade de ferir a alma e não a pele como os espinhos da roseira.

A abelha também tem sua defesa na forma de um espinho, o ferrão que nos causa uma dor incômoda, como se todas as dores não fossem incômodas. É a sua defesa para assim, poder produzir o dulcíssimo mel que é a razão da vida destes insetos. Ao picar, a abelha perde parte de seu corpo causando-lhe a morte. Ah, se todos aqueles que infligem dor perdessem algo de seu, pensariam duas vezes antes de cometer este duplo sofrimento. Porém, o sofrimento maior ocorre em quem causa a dor, mesmo que inconsciente. Saberá posteriormente que este seu ato não a fez perder parte de seu corpo, mas parte de seu coração.

Assim, ao cabo de alguns poucos minutos de uma tarde de verão observando sombras, luz, rosas, abelha e viajando no pensamento concluo que precisamos pensar e refletir antes de esmagar um rosa ou matar uma abelha. Antes de destruir um sonho e findar uma vida.

O pontinho negro que fazia zum-zum encontrou o caminho de volta através da mesma janela que entrara e rodeou várias rosas de minha roseira, que ao sopro de uma leve brisa parecia regozijar de prazer por saber da continuidade da vida que ambos proporcionariam.

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