Ser pai

A porta do escritório, que chamo de bagunçoteca, abre e ouço uma voz grossa: “Pai, vamos tomar uma”? Levanto da cadeira e no caminho até a sala passo por um espelho no corredor. Com o canto do olho vejo minha imagem refletida de perfil. Parei e voltei alguns passos até me olhar de frente no espelho. Olhei no fundo dos meus olhos e pensei comigo mesmo: “Ele cresceu”.

Até outro dia era um guri que pra andar na rua comigo segurava meu dedo mindinho, pois sua mão era muito pequena. Até outro dia era o menino que dizia…”Tô com catafora”. Para dizer que estava com catapora. Também trocava a ordem das sílabas nas palavras…”Esse guinocinho num cunfona…”, ao reclamar de um carrinho movido a pilha. Até outro dia era o guri que ao entrar no Maracanã pela primeira vez, falou: “Ih…que barato! Parece o Futebol Gulliver”. E que aos seis anos, mesma época em que assistiu a primeira partida de futebol, ao ir a um GP de Motociclismo no autódromo da Barra, no auge da emoção, diz: “Conserta minha bicicleta! Conserta minha bicicleta!”. Também era o guri que me via tocar violão e foi aprendendo só de observar. Agora só toca Heavy Metal! Também, até outro dia era o guri que aos dois anos, com passos ainda inseguros puxou o primeiro livro que havia numa estante baixa. Sim, o primeiro livro que puxou, acredite, foi o “Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels. Vai entender uma coisa dessas? Também até outro dia era o guri que ficava doido pra mexer no computador enquanto eu trabalhava achando o barulho das teclas algo fenomenal. Também me esperava chegar em casa, para juntos tomarmos banho, e eu tinha que pegar o chuveirinho e fazer de “garrafa de champanhe”, tal como fazia o Ayrton Senna após cada vitória.

Ah, sim. Eu também tinha que ficar cantarolando o “Tema da Vitória”. A maior diversão era fazer xixi no meu pé e dava gargalhadas enquanto eu fazia a encenação de piloto de Fórmula 1 sob o chuveiro. Também era o guri que ao acordar, eu perguntava: “Não vai lavar os corninhos não?” E ele saía correndo para a pia do banheiro pra escovar os dentes.

Com um certo espanto me dei conta mesmo que aquele guri, hoje é um homem. O tempo passou e eu nunca me dei ao trabalho de pensar em coisas do tipo ser “pai de manual de psicologia”. Ora, eu o fiz e o eduquei da melhor maneira que consegui, mas caramba… Ele cresceu! Engraçado isso de ser pai. Hoje eu tenho não apenas um filho, mas o meu melhor amigo. Conversamos, rimos, brincamos e também temos algumas rusgas, o que é natural. Se não tiver isso tudo não tem graça ser pai. Não tem mesmo.

Portanto, para todos nós que somos pais e para aqueles que ainda serão: Feliz Dia dos Pais.

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Um comentário sobre “Ser pai

  1. Irmão, eu nem preciso lembrar do que eu mais gostei, né? Foi sem sombra de dúvidas, a do “Futebol Gulliver” e a “MotoGP” eu estava lá…hahahahaha, cara, como o tempo voa, não? Feliz dia dos pais, meu irmão, meu melhor amigo, estou super emocionado lembrado do nosso saudoso pai, o velho Isma…rsrsrsrs.

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