Boa Páscoa

I
HAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!!, ecoou pelo amplo salão a risada do Dr. G. Nohma, o cientista (tem que ser louco, ok?). Seu assistente Igor (sim, porque todo assistente de cientista louco tem que se chamar Igor) tremeu com a reverberação do som da gargalhada que parecia um trovão, indo e vindo do chão até a abóbada do castelo (cientista louco que se preza tem castelo aos pedaços). O pobre ajudante (corcunda e caolho como todo ajudante de cientista louco), olhava inerte para a mesa de cirurgia e escorria um fiapo de baba viscosa do canto de sua boca. Sua cabeça não conseguia ficar no prumo, ou melhor, ereta, desde o dia em que o Dr. G. Nohma esqueceu e se apoiou na chave que liga o bate-estacas instalado em seu castelo quando de uma experiência para saber se havia inventado uma casca de ovo resistente as pancadinhas que toda cozinheira dá nas cascas para abri-las, e pedira a Igor para posicionar o ovo na base da ferramenta. Pode parecer loucura, mas ele, G. Nohma, na infância fora um amante dos galináceos. Dizem as más línguas que sua vida sexual fora iniciada por Fredegunda (tá, podem fazer rima), uma bela galinha branca que sua avó (todo cientista louco, assim como os caras que não sabem jogar bola foram criados e reprimidos sexualmente pela avó. Basta ver o cabelo escovinha e a roupinha bem passadinha, o cinto bem afivelado e outras frescuras) criava com carinho para a providencial canja quando ficasse doente. Digamos que estava sendo preparada para ser comida no sentido figurado e literal.
II
A noite estava chuvosa, uma chuva fria e um vento cortante. Sobre a mesa um coelhinho branco tão fofinho que parecia de anúncio de fábrica de chocolate. Igor se preparava para colocar os eletrodos em sua cabeça. Havia espaços delicados na cúpula de metal por onde passariam as orelhinhas do coelhinho. Raios riscavam o céu iluminando-o por breves momentos e os olhos do coelhinho pareciam quase saltar da órbita. O eletrocardiograma acusava batidas frenéticas. Quase um ataque cardíaco. A cada passo de Igor em sua direção, uma eternidade era vencida, transformando-se numa verdadeira relatividade espaço-temporal. O Dr. G. Nohma estava impaciente com a vagarosidade de seu assistente. Lamentou o dia em que quis saber se a sua nova invenção curaria joelhos bombardeados e deu um bico na rótula do pobre Igor numa partida de futebol. Ora, era preciso que todos os detalhes da experiência fossem totalmente fiéis à realidade.

Igor coloca a cúpula sobre a cabeça do coelhinho, ajeita as orelhinhas e olha para o cientista doido. Sorri e seus dentes mais pareciam um órgão de igreja gótica tantos eram os buracos de cárie, desde que o Doutor resolvera fazer uma nova dieta para Igor, já que o achava magrinho demais, desde então ele nunca mais teve os dentes em perfeito estado. Também queriam o quê? Pensam que Igor comia baratas, lagartixas, escorpiões? Nada disso, ok? Ele comia comida natureba balanceada, pois estava preocupado com o corpinho. O celerado Dr. G. Nohma o obrigou a comer hambúrguer do McDonald’s, beber Coca-Cola, mascar chiclete e de todas as barbarides, a maior delas, comer salgadinhos da Elma-Chips.
III
E lá estava o coelhinho com o coração na boca e tremendo desde a pontinha do nariz até o rabinho de pompom. Ele temia ser comido por esses dois loucos e até pensou que seria naquela hora que sua vida mudaria. Vai que gosta e resolve assumir o lado feminino. Seu medo era um espectro que rondava seus pensamentos e seu corpinho tremia. Cabe aqui a dúvida se era mesmo de medo ou outra coisa que começa com “t” e acaba em “ão”. Até que o ambiente estava, digamos, convidativo. Só faltava uma bebidinha pra relaxar. E não é que o Igor trouxe a tal bebidinha? O problema é que saía fumaça. Igor tapou o narizinho do coelhinho e derramou o líquido na boquinha do coelhinho. A mente do coelhinho viajou a velocidade da luz. Reviu toda sua vida em frações de segundo e até lembrou-se que a essa hora deveria estar entregando os ovinhos de páscoa. Pensou consigo mesmo: “Será que Papai Noel consegue ser tão rápido quanto eu na entrega?”. Sentiu o corpo relaxar e dormiu profundamente pensando nos seus ovinhos.

G. Nohma ligara as últimas tomadas e botões de seu painel de controle. As luzes piscavam freneticamente. Na outra cama que estava ao lado do coelhinho, havia um enorme ovo de páscoa, que media cerca de 1,75m do mais puro chocolate. Havia laços de cetim branco na embalagem vermelha do ovo. Dr. G. Nohma olhava extasiado ora para o coelhinho, ora para o ovo, e mais estranhamente ainda para Igor. O infeliz assistente já conhecia aquele olhar. Lembrou-se dos tempos de guri, quando o pequeno Gezinho o convidava para brincar de médico em seu quarto. Igor não gostou da lembrança. Desviou seu olhar e tratou logo de mancar e babar para desestimular qualquer idéia de jerico que estivesse passando pela cabeça do cientista taradão.
IV
Após ler algumas revistas semanais onde deram a notícia do mapeamento do DNA de vários animais, o incansável G. Nohma resolvera realizar suas próprias experiências e ficar rico misturando o DNA de um coelhinho com cacau, açúcar e leite. Depois venderia um coelho com sabor de chocolate e até poria um termometrozinho daqueles que vem nos frangos de granjas moderninhas e avisam a cozinheira quando estão prontos. Vislumbrou seu nome nas manchetes de todos os jornais, entrevista no Jô, audiência com o Papa e até pensou em fazer uma oferta de invenção para o Clinton de um charuto com sabor diferente. Nem o Fidel iria querer saber de Los Havanas, quando poderia fumar Los Xavascas. Seus olhos brilharam!

Tudo pronto, eletrodos ligados, Igor posicionado ao lado cama onde está o ovo de páscoa. Dr. G. Nohma baixa umas manivelas, suspende algumas alavancas e está preste a apertar o botão vermelho. Pela cabeça do coelhinho surgem imagens de dor misturada com prazer (coisa estranha pra caramba!). Igor estava com seus pensamentos distantes, já estava tão acostumado com essas experiências que agora nem fediam nem cheiravam. Até lembrou-se do calendário que vira ao borracheiro quando o pneu do rabecão furou. Lembrou que viu uma bela morena com os cabelos soltos ao vento, a pele queimada do sol e as gotículas de água do mar a escorrer por seus cabelos. Adorou aquele corpinho e aquele rostinho e pegou no bolso de seu surrado casaco o último número da Playboy. Começou a folhear e as mulheres maravilhosas surgiam a sua frente provocando tremores em seu corpo. Fechou os olhos e começou a esfregar a mão grossa e calejada (Não me perguntem porquê a mão dele é calejda, ok?) na altura da braguilha. Abraçou a revista e fechou mais ainda os olhos soltando um longo suspiro.
V
Um raio riscou o céu e o trovão ribombou no ar. Desceu pela antena e iluminou todo o salão. O coelhinho retesou o corpinho e esperou pelo pior. G. Nohma apertou o botão. Igor, por ser coxo e ter uma perna bamba, não conseguiu manter o equilíbrio e caiu sobre o ovo com a página central da revista aberta que se colou ao ovo que derretera um pouco devido o calor provocado pelo raio. Sua mão afundou no interior do ovo…
VI
Uma grande explosão aconteceu. Todos ficaram atordoados e por quase uma hora ficaram inconscientes. Lentamente o Dr. G. Nohma abre os olhos e percebe em meio a fumaça que há um vulto no salão. Não consegue distinguir. Procura o coelhinho. Este sumira da cama. Procura por Igor. Não o vê. Chama seu assistente com gritos frenéticos IGOR! IGOR! IGOR! E percebeu que a figura se aproximava cada vez mais. Gotas de suor escorriam por sua face e cada vez mais a figura se aproximava. Estava mais perto. G. Nohma procurava e não conseguia ver nada perfeitamente. Sua mente estava aturdida. Fechou os olhos e quando os abriu, à sua frente estava uma morena linda, 1,75m, vestida apenas com um lacinho de cetim no pescoço e entre seu belíssimo sorriso, perguntou: “Me chamou, Doutor?”.
VII
Saíram abraçados do castelo e quem viu o belo casal passar garante que a mulher tinha um leve odor de chocolate e um pompom no bumbum.
VIII
Se vocês acreditam que Papai Noel existe e que as mulheres que saem na Playboy são aquilo tudo, também podem acreditar em Coelhinho da Páscoa e nessa história.

Boa Páscoa!

(J.A. – 2000)

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2 comentários sobre “Boa Páscoa

  1. O Igor sabia que a sua preocupação em manter o seu corpinho com alimentação natureba balanceada iria, em algum momento, contribuir para as experiências de seu amado… Adorei!

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  2. Amei o texto e pode ter certeza que acreditei em tudo! rsrsr. Parabéns meu mais novo amigo.

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