Papagaio da Sogra


GLÓRIA! GLÓRIA!GLÓRIA!GLÓRIA!GLÓRIA! ALELUUUUUUUIA! Currupaco…

-Filho da puta! Tu não fala nada que preste…

– AH AH AH AH AH AH AH….currupaco…

“Um dia ainda mato esse desgraçado”, disse o Neriel, dono do botequim que chamamos Salada Viva em tom de brincadeira. Um dia, e isso foi contado como verdade absoluta, uma folha de alface caminhou pelo prato, fazendo os comensais arregalarem os olhos e pensarem em fantasmas. Só que na verdade, era uma lesma que se alojara sob o vegetal e seguiu seu caminho naturalmente não se importando se havia alguém olhando. Segurando uma faca enorme, daquela que costumam chamar de peixeira, Neriel cortava um pedaço de bolo que acabara de sair do forno. Nem sempre a Doca, uma das cozinheiras, acerta o ponto e o bolo fica solado. Assim como quase tudo nesse botequim, o bolo fica meio que deixando a desejar, mas na hora da fome matinal qualquer bate-entope serve para fazer agüentar até a hora do almoço.

“Neriel me dá aí um pingado e um pão na chapa”! Geralmente é isso que se pede pela manhã e o Neriel, um negro vindo da Bahia, fica zonzo andando pra lá e pra cá tentando atender todos os pedidos que lhe são feitos. Ele já tentou colocar ajudantes, mas parece que nenhum deles conseguiu aturar o seu jeito ou conseguiram coisa melhor. Pelo balcão já passaram irmãos, sobrinhos e até mesmo duas libélulas que não davam sossego aos entregadores das cervejarias e demais empresas. Geralmente são homens fortes que carregam engradados às costas e que deixavam as libélulas com um sorrisinho maroto no canto da boca fazendo-as correr para o depósito nos fundos do estabelecimento comercial. Iam lá para com o intuito de instruir onde colocar os engradados, caixas e demais produtos que chegavam. Acho que não deu muito certo (sem jogo de palavras). A quantidade de cafezinhos servidos aos entregadores superava em muito as vendas para os consumidores. Isso para não falar dos olhares furtivos e apaixonados que distribuíam a torto e a direito.

– GLÓRIA! GLÓRIA!GLÓRIA!GLÓRIA!GLÓRIA! ALELUUUUUUUIA! Currupaco…

“Papagaio desgraçado…”, sussurrava o Neriel. “Comprei esse filho da puta e deixei lá em casa. Eu fazia gosto de ver o bicho começar a falar. Estava aprendendo a falar meu nome e a falar o nome do mais querido, o Flamengo. O problema é que minha sogra ficava lá em casa enquanto eu e a Lara vínhamos trabalhar. A velha é da igreja. É crente. Se reunia com as irmãs da igreja pra orar lá em casa. E não é que do danado aprendeu a orar? Passou a ficar o dia inteiro repetindo…grória grória grória grória grória grória – dizia o Neriel no seu linguajar rápido – Eu, nessa época andava de ovo virado com a velha e parece que ela fazia isso de sacanagem. Ela sabia que eu estava ensinando o bicho a falar. Tinha a maior paciência, mesmo quando ele bicava meu dedo. Uma vez o danado fez malcriação, dei um tapa nas fuças dele. Dias depois, marquei bobeira e ele me bicou o dedo. Dei outra porrada nele. Já estava por aqui com essa história de só orar e nada de falar o que eu queria e isso foi a gota d’água. Agora eu trouxe ele aqui para o bar…”

– AH AH AH AH AH AH AH….currupaco…

“Tá vendo? Até a risada é igual da velha. Ela ficava lá fofocando com as irmãs da igreja e de vez em quando dava uma gargalhada e o bicho aprendeu. Parece até pomba-gira. Papagaio desgraçado. Só não boto na panela porque a carne é dura”.

E lá ia o Neriel pra cima e pra baixo em seu passo apressado. De vez em quando parava à minha frente e falava algo sem que eu pudesse entender. Os outros fregueses se divertiam com o papagaio. “Aí, Neriel! Ele ta rindo…” ou “Neriel desliga a televisão que esse tal de Louro José perde para o teu papagaio”. “Bicho esperto. Sei que vive quase cem anos”. Começaram as conjecturas sobre a vida da família dos psitacídeos. O quê? Vai dizer que não sabia que os papagaios, araras e periquitos fazem parte dessa família. Vai me dizer também que não sabia que maracanã é papagaio em tupi-guarani? Não tem problema, um pouquinho de cultura inútil sempre rende um bom papo numa manhã chata dentro de um botequim.

 

(J.A. – 2004)

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6 comentários sobre “Papagaio da Sogra

  1. eu quero compra um papagaio mais não sei a onde vende vc ponde me da o endereço para eu compra um papagaio

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  2. eu gosto muito de bicho mais eu amor este bicho nome papagaio minha mae amar papagaio é minha sobrinha que que eu compri um papagaio meu orkt e edmilsonbrito_30@hotmail.com meu tel:87178356 ou 39713212 fica com jesus cristor abraço para todos da sua familia

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