Do alto destas pirâmides 40 séculos vos contemplam.

“As radiografias do crânio de Tutancâmon sugerem uma morte violenta. Acidente ou assassinato? Por que seu túmulo era tão pequeno e insignificante? Teria sido destinado à outra pessoa? Vários membros da família de Tutancâmon morreram aproximadamente na mesma época. Mera coincidência”?O Assassinato de Tutancâmon

Que fascínio este faraó [1] exerce sobre nós que estamos distantes de seu reinado por tantos séculos? Lembrando as famosas palavras de Napoleão que servem de título a este artigo, podemos notar que a história do Egito é tão antiga quanto à história da civilização. Alguns fatos precisam ser esclarecidos, digamos, para que não incorramos em erros, que não são grosseiros, mas bastante comuns. Em primeiro lugar, situar o Egito geograficamente. Este país fica no norte da África estando próximo ao oriente médio, devido a fronteira com a península arábica. Talvez a confusão seja motivada pelo paralelismo e contemporaneidade da formação de civilizações, tanto no chamado crescente fértil, o vale que fica entre os rios Tigre e Eufrates, e a formação do Egito como civilização em volta do rio Nilo.

A civilização não nasceu propriamente no Egito, mas como podemos nos perguntar sobre o surgimento de tão rica e excepcional cultura? É simples: os chefes de clãs locais passaram a ter, com o tempo, um status de nobreza e realeza. Seu poder só fez crescer à medida que foram organizadas as bases de sustentação da sociedade, onde a presença da religião centralizava o poder naquele que era, em primeira instância o mais importante representante dos deuses ou o mais importante sacerdote da religião vigente.

Durante os séculos de existência do Egito como civilização, houve várias marchas e contramarchas. Foi um país que sofreu invasões e promoveu outras tantas para o sul, no atual Sudão ou para o leste atingindo o rio Eufrates. As relações comerciais com seus vizinhos eram de tal importância que o ouro era abundante em seu território. Por outro lado, faltavam-lhes materiais que nos parecem tão simples como madeira e ferro. A cobiça de seus vizinhos por suas riquezas e fertilidade do solo e suas necessidades motivaram estas marchas e contramarchas.

A periodização, ou contagem que nós desenvolvemos para entender o Egito é também feita através das suas dinastias. Sendo assim, a história do Egito tem subdivisões onde algumas características são comuns, e para facilitar a compreensão foi dividida em Antigo Império, Médio Império e Novo Império. Entretanto, não devemos esquecer que ainda no Antigo Império, houve também uma idade do ouro, quando as grandes pirâmides foram erguidas.

A expulsão dos Hicsos por Amósis ou Amós – a grafia de seu nome pode variar assim como de vários outros personagens da História Egípcia – marca a formação de uma era esplendorosa no Egito: a XVIII dinastia [2] ou Novo Império, período o qual pertence Tutancâmon [3]. Isto se deu quando o rei assumiu não só o papel de mais importante chefe religioso, bem como de grande guerreiro. A força e o poder agora estavam unidas no militarismo e na religião.

A religião egípcia, assim como várias outras da Antiguidade, tinha o animismo como principal característica, onde os corpos celestes, animais e fenômenos metereológicos eram reverenciados e assumiam caráter divino.

Os reis da XVIII dinastia impuseram o culto a Amon, identificando-o com Rá, o antigo deus solar e assim aparece Amon-Rá (o único criador da vida). Houve uma oposição religiosa a Amon-Rá, quando Aton (o disco solar), foi imposto como deus único.

O que isto tem a ver com a morte de Tutancâmon? Tudo! Antes disso é preciso compreender o que representava a religião para este povo. Sem ela, mal davam um passo sequer. O Nilo era a dádiva do Egito oferecido pelos deuses. O faraó era o representante direto de Rá, o deus-sol. Logo abaixo vinham os sacerdotes, sendo que um deles poderia se tornar tão ou mais poderoso que o próprio Faraó, à medida que seu poder de influência religiosa crescia.

Sabendo disso, podemos entender um dos reais motivos que levaram Amenófis IV [4] ou Akhenaton, a instituir uma reforma religiosa de caráter monoteísta, onde o único deus a ser adorado, seria Aton, ou o disco solar. Isto impôs uma “derrota” aos sacerdotes e dando fim aos cultos locais, modificando sobremaneira a relação de poder entre o Faraó, a elite religiosa e o povo egípcio. Amenófis IV foi morto aos 29 anos durante uma revolta religiosa que marcou o retorno de Amon, o Sol, ao panteão egípcio e novamente trazendo o politeísmo.

Tutancâmon foi alçado ao trono logo após a queda de Amenófis IV, cotava 10 anos de idade e era considerado um filho por este faraó. Seu reinado foi curto e ficou um tanto esquecido por séculos até que expedições arqueológicas ao vale dos reis, local de sepultamento dos reis da XVIII dinastia, encontram indícios de haver uma tumba se não importante, pelo menos misteriosa devido não saberem exatamente de quem se tratava.

O fascínio deste rei que hoje é tão importante quanto a de um ícone pop (quem nunca viu uma figura da máscara mortuária de Tutancâmon?), que atrai multidões quando seus tesouros e múmia são expostos nos museus ao redor do mundo. Falam até da tal maldição do Faraó, o que não passa de crendice, mas que fez com que cada vez mais aumentasse o interesse por ele e pelo Egito Antigo. A sua morte é cercada de mistério e neste livro, Bob Brier, respeitado egiptólogo nos mostrará que realmente houve um assassinato e os motivos para tal morte podem ser encontrados no seio da religião e disputa pelo poder.

* Não se trata do documetário sobre o livro em especial.

[1] A palavra faraó deriva de duas palavras: per aa, ou a casa grande (palácio).
[2] Alguns reis da XVIII dinastia: Amós, Tutmes I, Hatshepsut (farani, ou mulher que assumiu o trono), Tutmés III, Amenófis IV, Tutancâmon.

[3] Tutancâmon significa: imagem viva de Amon.

[4] O amado de Aton. Akhetaton, atual Tel el Amarna, tornou-se a capital. Também se encontra a grafia Amenhotep IV em alguns livros.
(J.A. – 2003)

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