Livros, Livrarias e Leitores

Você já prestou atenção a forma como tentamos pronunciar os nomes dos autores estrangeiros? É estranho falar nisso, pois trabalhamos com eles todos os dias. Mas, cá pra nós, é complicado mesmo. Agora imagine alguém chegar numa livraria e pedir um livro do Máiquel Fôucalti. Sim, é isso mesmo. Estamos tão impregnados de anglicismos. Peraí, deixa eu explicar: estamos tão influenciados pela forma de pronúncia do inglês norte-americano que o Michel Foucault (Michéu Fucô) virou Máiquel Fôucalti. E a Simone de Beauvoir. Triste, mas é verdade. Virou Simone de Bovuá. Esse não é um caso de influência tiosanesca, mas de falta de conhecimento mesmo.

Ah, bons tempos aqueles em que a última flor do Lácio era a nossa língua oficial.

Aqui e ali escutamos casos parecidos, alguns dignos de se registrar para a posteridade como o do rapaz de uma livraria técnica que tinha uma excelente seção de informática e se confundiu todo quando colocou a biografia da Duquesa de Windsor junto com os livros de Windows. Tudo começa com win, logo é tudo igual. Sabemos que o Windows é uma interface gráfica que um nerd biliardário cisma em dizer que é um sistema operacional; agora, juntar a desafortunada e falecida Lady Dy com um programinha chinfrim é o cúmulo. Tenho certeza que se a Rainha da Inglaterra soubesse disso, teria dado gargalhadas mórbidas.

Há também o caso do balconista que não achava o livro do Rimbaud de jeito nenhum. Aí chegou para o gerente e disse: “Seu fulano, não tem o livro desse tal Rimbaud”. O gerente da loja disse: “Meu filho, vai na prateleira e vê se tem um livro de um autor chamado Rimbálde”. “Tem sim! Esse tem, seu fulano”.

Parece até coisa do tempo da Redentora, quando se proibiam livros por conter a palavra vermelho na capa. Dá pra entender o motivo da proibição do Vermelho e o Negro? Acho que não dá mesmo. E o velho livreiro, já falecido e que tinha um excelente papo e nos deliciava com suas histórias, que contou o sufoco que foi explicar para um agente da repressão que o Le Corbusier que ele queria apreender os livros era o arquiteto e que já morrera fazia tempo e não o filósofo Roland Corbusier. Acho que tem um filósofo brasileiro devendo sua liberdade a um livreiro. É de chorar. Parece até o FEBEAPÁ do Stanislaw Ponte Preta.

E aqueles clientes que ficam horas nas livrarias quase todos os dias? Parecem até funcionários. Conhecem todos e até ajudam a vender livros. Isso pra não falar de um rapaz que ia todos os dias numa livraria e comprava um livro. Só que para comprar, era feito um verdadeiro ritual. O rapaz, em primeiro lugar, verificava se o livro estava empenado. Depois abria página por página e sentia o cheiro do livro. Aí verificava meio que aleatoriamente as páginas em busca de falhas ou erros. Detalhe: se houvesse três exemplares do mesmo livro na loja, ele repetia o ritual para cada um dos exemplares. O dono da livraria me contou que certa vez este rapaz lhe disse: “Avise para a editora que o livro está com defeito. O pingo do i da página tal, parágrafo tal, linha tal, na palavra ‘idéia’ está meio apagado”. Podem acreditar, pois eu já vi o cara fazer coisa parecida.

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