Recanto das Palavras

Lapa em slideshow

Basta clicar sobre a imagem para ver algumas fotos

da Lapa, Rio de Janeiro, tiradas em meados de maio de 2008.

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Falsa Baiana – Geraldo Pereira, samba sincopado e bossa nova

Muito provavelmente você já cantarolou os versos de “Falsa Baiana”. Acredito piamente que a maioria conhece a versão bossanovística do João Gilberto que, digamos, revitalizou este samba seminal, que para muitos foi um samba precursor da Bossa Nova, justamente pelo fato de ser sincopado (¹). O que a maioria não sabe é que este e outros sucessos da MPB, como Sem Compromisso (neste post é apresentado por Chico Buarque e Tom Jobim), Acertei no Milhar (antológica versão como samba de breque gravado por Moreira da Silva, o Kid Moringueira), Bolinha de Papel e Escurinho entre outras composições são de autoria de um motorista de caminhão da companhia de limpeza urbana, chamado Geraldo Pereira.

Geraldo PereiraEste ano ele completaria 90 anos [Juiz de Fora, MG, 23/4/1918] e muitos acreditam na lenda de que foi morto numa briga com Madame Satã. Ele morreu, sim, de causas naturais, isto é, complicações intestinais num hospital público em 1955. Mesmo assim, como diz o ditado que quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda. Lenda esta que foi alimentada por muito tempo até que o referido personagem da Lapa, o lendário homossexual Madame Satã, que encarava a polícia e a botava pra correr, contou que tudo se originou de um entrevero entre ele e Geraldo Pereira devido a uma frase infeliz que o compositor proferira: “Puto não toma cerveja no meu copo”.Madame Satã Esta frase foi dita após ter visto Madame Satã tomar um gole de cerveja em seu (dele, Geraldo Pereira) copo. A coisa ficou meio que esquecida até que um dia, Madame Satã, que não levava desaforo pra casa, foi tomar satisfações. Discutiram e ele empurrou o compositor que caiu e bateu com a cabeça no chão. Muito provavelmente estava bastante bêbado. A briga se deu na Rua Teotônio Regadas, na Lapa. Este depoimento foi recolhido no livro “Lapa do Desterro”, uma coletânea de textos sobre o bairro organizada por Isabel Lustosa.

Geraldo Pereira foi o típico compositor de sambas. Negro, pobre, favelado, quase sem instrução formal e tido por malandro. Entretanto, a sua biografia não pode ser vista apenas por este ângulo. É preciso se entender como se deu e se dava a inserção do negro na sociedade urbana brasileira desde o fim da escravidão para que alguns mitos sobre a sua figura caiam por terra.

Geraldo não viveu de “golpes” ou de expedientes de jogatina e, muito menos, da exploração de mulheres que, aliás, não foram poucas em sua curta vida. Viveu com elas, mas não delas. Em síntese, a sua estratégia de vida foi marcada pela busca de afirmação como compositor, mais do que como intérprete, que lançou mão da sua criatividade intelectual; condição que lhe permitiu a passagem por uma fresta estreita que dava acesso a um universo intelectual bastante heterogêneo._ (in: DIAS, Luiz Sergio – No tempo de Geraldo Pereira. Centro de Artes Geraldo Pereira)

Foi boêmio, sim, e não deixava de participar de outras atividades culturais como shows e até mesmo aparições no cinema (“Berlim na Batucada, de 1944”). Viveu a época áurea do Rádio no Brasil tendo suas composições gravadas pelos maiores artistas da época como Emilinha Borba e Ciro Monteiro, por sinal, seu padrinho musical e que o acompanhou até a sua morte como seu grande intérprete.

Como dito anteriormente é inegável a sua influência para o surgimento da Bossa Nova. Leia o trecho abaixo:

Cyro de Souza explica que “se quiser continuar pesquisando você vai encontrar a divisão rítmica de João Gilberto, que veio muitos anos depois, caracterizar a ‘bossa-nova’, nas síncopes de Geraldo Pereira”. Para Cyro “a grande partida foi o samba teleco-teco, que GTP ‘encheu de nuances’, fazendo uma ‘bossa inteiramente nova’, cerca de 18 anos antes do surgimento do ’samba de apartamento’ da zona sul do Rio.” (CAMPOS, Alice Duarte Silva de et alii. Um certo Geraldo Pereira. pp. 141. Rio de Janeiro, FUNARTE/INM/Divisão de Música Popular, 1983.)

E o próprio João Gilberto fala a respeito de sua admiração por Geraldo Pereira e sua música numa história que se passou na Lapa:

Eu era ainda do conjunto Garotos da Lua, nem pensava em cantar sozinho, quando um dia ele me convidou para sentar com ele num bar daqueles na Rua da Lapa. Enquanto a gente tava tomando umas coisas no bar, passaram uns sujeitos e me estranharam, ficaram olhando da porta. E ele:”Que é que vocês tão olhando? Isso aqui (era eu) é gente minha!” Os caras foram embora. O samba dele era leve e cheio de divisões rítmicas, isso sempre me chamou atenção. Ele não tinha consciência disso, mas foi um inovador na música popular brasileira na década de 1940.” (idem. pp. 26)

Aqui, eu aproveito trechos e títulos de suas composições para fazer uma brincadeira:

Etelvina, minha falsa baiana escurinha, que não samba, não dança, não bole nem nada. Achas que vou acreditar que você só dança com ele e diz que é sem compromisso? Até parece que pisei num despacho! Eu ia te dizer que acertei no milhar e, dos bilhetes que te escrevi fiz bolinha de papel.
Ass. Geraldo, teu escurinho.

Links sobre Geraldo Pereira

Sem Compromisso com Chico Buarque e Tom Jobim

Falsa Baiana com Ciro Monteiro

Falsa Baiana com Roberto Silva e Roberta Sá

Centro de Artes Geraldo Pereira

Comunidade no Orkut

Se você toca violão…

(¹) Sincopado – Som emitido em tempo fraco de um compasso, e prolongado no tempo forte que se segue. (…) a síncopa, a batida que falta. Síncopa, sabe-se, é a ausência da marcação de um tempo [fraco] que, no entanto, repercute noutro mais forte. (…) De fato, tanto no jazz quanto no samba, atua de modo especial a síncopa, incitando o ouvinte a preencher o tempo vazio com a marcação corporal – palmas, meneios, balanços, dança. É o corpo que também falta – no apelo da síncopa.
In: Sodré, Muniz – Samba, dono do corpo. Mauad Editora

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Mestre Yoda cantando Nelson Cavaquinho. Isso é que é globalização!

Pegue um samba da mais alta qualidade (Degraus da Vida, na voz de Nelson Cavaquinho), um botequim pé sujo, um computador para fazer animação em 3D e o Jedi dos Jedis, o mestre Yoda, e teremos uma performance de abalar o Império do Mal.

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Polígono do samba – Origem

O samba como conhecemos hoje teve origem no Rio de Janeiro. Alguns bairros e localidades foram extremamente importantes para a sua afirmação e desenvolvimento como expressão cultural, num primeiro momento de uma parte da sociedade brasileira do início do século XX, os negros recém-libertos e, posteriormente, assumir a forma de expressão da cultura brasileira em grande parte.

No mapa abaixo, você encontrará não apenas informações da geografia do samba, mas também links para conhecer alguns personagens deste primeiro momento do Samba, como Tia Ciata, por exemplo; além de músicos como Pixinguinha, Heitor dos Prazeres e outros mais.

Clique aqui ou sobre o mapa para ampliar.

Clique no mapa para ampliar

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Hulk in Rio – Gravações na Lapa

Parece que os gringos de Hollywood descobriram a Lapa. Como não poderia deixar de ser, as locações são as de sempre: os Arcos da Lapa e a escadaria Selaron.

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Pra começar, um dia antes, como se fosse uma invasão de território, a produção encheu a rua com os cones de cor laranja indicando que as vagas de estacionamento terão dono. Que se dane quem trabalha ou mora perto. Depois chegam as gruas, tal qual aquelas maravilhosas máquinas de guerra que só eles sabem inventar. Em seguida chega a tropa. Um batalhão de técnicos, todos de boné, camiseta, bermuda e cintos que mais parecem o cinto de (in)utilidades daquele outro personagem de quadrinhos, o Batman.

hulkrio02.jpg

Há uma profusão de sons e uma certa algaravia no ar. O inglês parece ser a língua franca. Os nativos, como se estivessem esperando a descida de algum deus, se amontoam por trás das máquinas e comentam sobre o que vêem. Uma menina mais afoita pergunta bem baixinho: O Edward Norton já chegou? Repete a frase, agora com um sorriso entre o nervoso e o esfuziante: Ele já chegou? Dar de ombros foi a resposta que obteve.

Os caras parecem que tem o poder de mexer no tempo. A chuva que caía há 36 horas subitamente parou.

Não se espantem se o Incrível Hulk for visto, logo mais à noite, de braços dados com alguma das meninas de tromba que fazem ponto no fim da rua. Antes disso, quem sabe, ele peça uma caipirinha e se lembre que poderia também ser “caipirado”. Afinal, o limão é verde. E pra completar, ao final das gravações cante e sambe (apontando os dedos pra cima como só os gringos sabem sambar) ao som de Camisa Listrada… “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí. Em vez de tomar chá com torrada ele tomou Paraty…”

As fotos foram tiradas com um Nokia 6600.


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