Recanto das Palavras

Almoço na sogra e Bandalhismo

Certa vez, ainda nos tempos de namorado, lá pelos 19 anos de idade, num domingo minha sogra resolveu fazer rabada. Mandou avisar com antecedência. Como eu sempre gostei muito da dupla Bosco e Blanc e de rabada, vivia comprando discos e tocando suas músicas que avidamente esperava sair na antiga revista Violão & Guitarra, para depois impressionar a namorada com meus dotes musicais. Não me fiz de rogado.

Domingo, de banho tomado e todo cheiroso lá vou eu para a casa da namorada e levando debaixo do braço o LP Bandalhismo, doido pra mostrar para a sogra o quanto a música pode “casar” com a culinária.

Lá chegando já fui me apoderando da vitrola. Sim, sou desse tempo. Enquanto o rango estava nas preliminares para ser posto à mesa, e eu ataco de “Tal Mãe, Tal Filha” (“…minha sogra, Deus a tenha. O Terror da Penha. Velha desbocada, Center-Half nas peladas, braba de umbigada”). Alguns olhares da sogra foram meio enviesados. Será que ela pensou que era alguma indireta que eu estaria mandando? Acho que foi isso o que ela pensou. Até aí tudo bem. Mesa posta, nós três à mesa e a bandeja com a rabada fumegante a nos esperar. Cervejinhas rolando pra lá e pra cá até que falei que deveríamos comer a rabada ao som de “Bandalhismo”. Depois que os pratos foram devidamente servidos, levantei-me pedindo silêncio para que prestassem atenção na letra e coloquei a faixa do LP para tocar.

E começa o João Bosco… “Meu coração tem botequins imundos, antros de ronda vinte-e-um, porrinha…”. Olhares um tanto parados devido ao tema.

Garfadas suaves eram dadas para que a voz do João Bosco expusesse a letra. Olhares já um tanto esbugalhados da sogra para mim no “Essa vontade de soltar um barro” e eu todo feliz por estar mostrando cultura para ela. O João Bosco manda…” Como os pobres otários da Central já vomitei sem lenço e Sonrisal o P.F. de rabada com agrião…”. E eu ouço…”Minha filha ele ta estragando o almoço…”

Nem deu tempo de ouvir a parte com o Paulinho da Viola. Fiquei com cara de tacho e rapidinho tirei a música.

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Meme Literário

Acabei de receber um pedido do Henrique, do blog Vai Vendo…, para participar de um meme literário no qual eu devo escrever considerações sobre cinco autores preferidos. Confesso que é uma tarefa um tanto árdua, pois eu acredito que possa haver este ou aquele autor ou autora que sejam de preferência particular de cada um de nós. O receio é deixar de citar este/esta ou aquele/aquela autor/autora. Caso não venha a citá-los, prometo que o farei numa nova oportunidade.

Como eu não tenho um estilo literário preferido posso citar mais autores consagrados num estilo literário do que outro. Vamos a labuta:

Sergio (Stanislaw Ponte Preta) Porto

O seu carioquismo, conhecimento musical (Samba e Jazz) e, se vocês não sabem, foi ele quem redescobriu o Cartola quando este se tornara um simples lavador de carros – e a sua facilidade em ser extremamente humorado e crítico ao mesmo tempo me fizeram ser um ávido leitor de seus livros. Digo até que sinto forte influência do seu estilo em meus escritos. Vez ou outra eu cito termos que encontrei em seus livros como “plebe ignara”, “cocorocas”, “samba do crioulo doido” e o impagável FEBEAPÁ.

Hoje mesmo passei pela Rua da Borda do Mato, onde morava – e porque não dizer que ainda mora – a veneranda Tia Zulmira. Até pensei em escrever um post sobre esta passagem fortuita por esta rua. E, por uma grande coincidência sou convidado e falar sobre autores. Logo, o primeiro da lista não poderia deixar de ser o Sergio Porto.

Aldir Blanc

Seria impossível não citar o Aldir Blanc como um dos meus autores preferidos. Tenho todos seus livros e, em minha humilde opinião, o seu livro clássico é “Rua dos Artistas e Arredores”, quando nos apresenta o inesgotável universo de personagens do subúrbio carioca. Quem nasceu e foi criado em um subúrbio carioca, como este que vos escreve, vê e relembra tudo que só os bairros de subúrbio do Rio de Janeiro são capazes de ter e proporcionar.

Também vou cita-lo por conta das letras de suas composições com João Bosco que se tornaram clássicos da MPB como, por exemplo, “O Bêbado e a Equilibrista”. Assim, posso dizer que a influência de Aldir Blanc se faz em meus textos. Pô, eu sou carioca e do subúrbio!

Há uma frase sobre o amor, que o Aldir escreveu que acho fenomenal: “Eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado”.

Italo Calvino

Dentre todos seus livros, que considero importantíssimos para se aprender e apreender o espírito lírico da alma humana, eu recomendo a leitura da trilogia “O Visconde Partido ao Meio”, “O Barão nas Árvores” e “O Cavaleiro Inexistente”. Todos falam da singularidade humana, cada um de um jeito como em O Visconde Partido ao Meio, quando Medardo di Terralba é partido ao meio por uma bala de canhão e as suas metades, uma boa e outra má passam a vagar pela terra praticando atos extremados de bondade ou de vilania. A conclusão que podemos ter é: Não se pode ser mau demais nem bom em demasia. Ambos se tornam chatíssimos e o ideal é o que temos em nós, o equilíbrio entre a bondade e a maldade.

Fernando Pessoa

Como alguém que fale Português deixaria de citar este escritor? É impossível não falar dele. Ah, mas você pode dizer: “Ora, ele era português e pouco tem a ver com o Brasil”. Ledo engano. Ele tem tudo a ver conosco. Apesar de termos a alma livre e o espírito alegre, no fundo; mas lá no fundo mesmo, trazemos aquela melancolia que herdamos da península ibérica, de Portugal. Da espera pelo “Desejado”, que no nosso caso é o porvir do “Brasil, país do futuro”. E se não fosse ele a nos dizer que “tudo vela e pena se a alma não é pequena”, como poderíamos encarar a vida e os reveses da mesma?

Machado de Assis

O Bruxo do Cosme Velho sempre me encurralou nas cordas quando eu era adolescente e na escola nos mandavam ler seus livros. Era um suplício! Um adolescente, aos doze anos, não está preparado para ler e absorver Machado de Assis. Porém, depois dos vinte anos, recomendo: não deixe de ler.

Eu, ali por volta dos 25 anos, já casado e pai, não sei por qual motivo fui pegar um livro numa estante em casa. Um livro dos tempos de graduação e, pode acreditar, como que por encanto (lugar comum, não?) um livro caiu aos meus pés. Bateu bem no dedão do pé e me agachei para pega-lo e coloca-lo de volta no lugar. Vi que tratava-se de “O Alienista”, uma edição de bolso daquelas que as professoras de Português nos mandavam comprar para ter como leitura obrigatória. Logo vieram as imagens dos tempos em que eu só levava nocaute do citado Bruxo. Ali mesmo fiquei a folhear o livro e reviver memórias. E não é que comecei a ler? E quem disse que eu parava? Dali em diante virei fã e não podia imaginar o quanto a leitura de Machado de Assis me ajudaria a compreender o Brasil e o Rio de Janeiro do século XIX. Em tempo: Seus livros são atualíssimos.

Indico os seguintes blogs que visito com regular freqüência:

Dúvidas & Angústias

Encanto

Intensidade

Palavras Sussuradas

Verblogando

Gilrang´s Blog

Espartilho

Aqui aproveito algumas palavras do Henrique:

Aos amigos, deverá ser indicado no seu blog o recebimento da indicação e a continuidade deste Meme. Antecipo meu pedido de desculpas, caso não seja do seu agrado a participação deste tipo de brincadeira.

 

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Mestre-Sala dos Mares: Há muito tempo nas águas da Guanabara

José Murilo de Carvalho_João Candido

Marinha libera documentos do Almirante Negro.

“A Marinha liberou, enfim, depois de 97 anos, documentos referentes ao marinheiro de 1ª classe João Cândido Felisberto (1880-1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata (Folha Online, 09/03/2008)”

Em 1910, creiam, o Brasil tinha uma das maiores marinhas do mundo. Entretanto, ainda eram praticados castigos corporais em marinheiros, como se a escravidão não houvesse terminado há algumas décadas. Neste ano, um grupo de marinheiros liderados por João Cândido Felisberto (1880-1969), fez uma revolta que foi conhecida como A Revolta da Chibata, que apesar da violência praticada contra os participantes após as negociações, pôs fim aos castigos corporais. De todos os participantes que após negociações com a Marinha, um dos dois a sobreviver foi justamente o Almirante Negro.

A chibata utilizada nos castigos era feita com uma corda de linho molhada, atravessada por agulhas de aço.

Não havia qualquer interesse político nesta revolta. O objetivo único era o fim dos castigos corporais, como bem está exposto nas palavras de João Candido.

O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia a todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas. (carta de João Cândido, líder da revolta)
Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República e ao ministro da Marinha. Queremos a resposta já e já. Caso não a tenhamos, bombardearemos as cidades e os navios que não se revoltarem.

Os revoltosos foram presos e torturados – alguns fuzilados – na Ilha das Cobras (RJ). João Candido ficou trancafiado numa solitária na qual o chão era coberto de cal e nem mesmo água lhe era servida regularmente, tendo muitas vezes que beber a própria urina para matar a sede. Além dele, apenas um outro marinheiro sobreviveu.

Hoje, dia 9 de março de 2008, os documentos sobre este personagem e a Revolta da Chibata foram tornados públicos. Isto é muito bom, pois a versão oficial, a da Marinha, foi a que permaneceu nos registros, exceto pelo livro de Edmar Morel, “A Revolta da Chibata”, que conta a verdadeira história.

(…) Corajoso registro de fatos que a História oficial tentou deixar esquecidos: os tenebrosos massacres na ilha das Cobras, onde os revoltosos já anistiados foram levados a uma masmorra subterrânea cheia de cal; os fuzilamentos e as torturas de toda ordem; a desumana escravidão de centenas de marinheiros e trabalhadores levados para a selva amazônica; os desmentidos do governo; a longa prisão e os últimos dias de João Cândido.

Aldir Blanc e João Bosco compuseram “Mestre-Sala dos Mares”, uma homenagem ao Almirante Negro, que talvez muitos de nós nem sabíamos ter existido. Um detalhe curioso foi a mudança de uma palavra na letra da música. Tiveram que retirar “almirante” e em seu lugar usar “navegante”, devido a uma imposição da censura na época da Ditadura Militar (1964-1985).

Elis Regina interpretando Mestre Sala dos Mares e abaixo está a letra

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão que a exemplo do feiticeiro gritava então:

Glória aos piratas
As mulatas
As sereias
Glória a farofa
A cachaça
As baleias
Glória a todas as lutas inglórias que atravéz da nossa história não esquecemos jamais
Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais
Mas salve
Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

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Não tem tradução

The Rosetta Stone in the British Museum © Bettmann/CORBIS

A nossa imprensa foi responsável por transformar o nobre esporte bretão em algo mais palatável lingüisticamente para nós e, assim, nos tornamos o país do futebol (football). Não sabe como isto se deu? Por acaso você sabe quem foi o center forward (atacante) de seu team (time), que durante o último match (jogo) passou pelo back (zagueiro) do club (clube) adversário e este cometeu foul (falta) quando ele marcaria um goal (gol), tendo o goalkeeper (goleiro) já fora do lance, jogando a bola pela linha de fundo e o referee (juiz) marcou corner (escanteio)?

O povo também dá seu jeito quando não entende, mas o som do que se ouve dito em outra língua pode ser transformado para algo pronunciável e, certamente, compreensível. Por exemplo, Maxambomba, um termo classificado como brasileirismo, era uma pequena locomotiva que puxava vagões de dois andares com cabine sem coberta para os maquinistas e vem de machine bomb, pois quem implantou as ferrovias e os maquinários no Brasil foram empresas inglesas. No Rio de Janeiro, a cidade de Nova Iguaçu, inicialmente também recebia o nome de Maxambomba justamente por este motivo. Isto para não falar do brasileirismo Tirampa, que veio da música Sex Machine, do James Brown, quando o pessoal dos bailes de subúrbio não entendia que ele gritava GET UP.

Isto não é uma crítica. É uma observação. O que não se entende, pelo menos eu não entendo, é o uso de estrangeirismos na linguagem quando podemos ter alguma palavra similar. Lógico que a norma vem do uso como, por exemplo, o uso da palavra vitrine, um galicismo, em vez de vitrina. Ora, todos nós usamos vitrine e seguimos em frente. Caso paracido há em Portugal, onde as telas da televisão, do cinema e também a do monitor de um computador são conhecidas como écran (outro galicismo). É estranho ver um texto escrito por alguém e a cada cinco ou seis palavras surgir um termo em inglês, que tem o equivalente em português e que é comumente usado, como se isto conferisse não só maior sabedoria mas também um ar moderninho. Muito provavelmente alguém vai dizer: Ah, mas você escreve site quando quer dizer que alguém tem um página na Internet e vai fazer um link pra chegar até lá. Tudo bem, temos equivalentes mas que ainda não são usados para denominar que alguém tem um sítio ou página, como quiserem, na Internet e será feita uma ligação ou encadeamento, como quiserem, para lá.

Há quem diga que até mesmo a praga do gerundismo tenha nascido da tradução de manuais e livros em Inglês. No desligamento de seu computador também surge esta praga diante de nossos olhos “O Windows está sendo desligado”.

A invenção do cinema falado foi um marco de caráter mundial como se sabe. Aqui no Brasil a chegada desta novidade, lá pelos idos da década de 1930, alguns anos após a exibição do primeiro filme sonorizado, O Cantor de Jazz (The Jazz Singer), protagonizado por Al Jolson, foi que a nossa língua portuguesa passou a sofrer maiores influências e afluências de anglicismos superando ou até mesmo bloqueando a chegada de novos galicismos. Isto tem um caráter cultural e econômico, devido ao crescimento contínuo da economia do grande irmão do norte.

Entre meados do século XIX até um pouco antes da Segunda Grande Guerra podemos dizer que o Brasil era um país francófilo. Para isto, basta ver um pouco da arquitetura do Rio de Janeiro, a então capital, do início do século XX para comprovar. Os prédios da Biblioteca Nacional e do Teatro Municipal são exemplos perfeitos disto, pois foram baseados em construções francesas. Mas, com o advento das novas tecnologias de entretenimento como a gravação de discos e, principalmente o cinema fomos lentamente nos tornando, digamos, mais ligados à cultura de língua inglesa.

Como nossos compositores que também eram cronistas sociais em suas músicas e estavam ligados ao momento em que viviam, nos deram saborosíssimos exemplos de crítica bem-humorada destas influências. Temos, então, Assis Valente e Noel Rosa que, em 1932 e 1933, respectivamente, lançaram dois sambas que tratavam deste fato. Tem Francesa no Morro, o primeiro, era bastante jocoso e falava num francês macarrônico que não era complicado de entender. O segundo, Não Tem Tradução, de Noel Rosa, já fazia uma crítica a “essa gente que tem a mania da exibição”, identificando certo esnobismo por parte dos nativos no uso de expressões estrangeiras querendo, assim, destacar-se do restante da plebe ignara.

O tempo passou e a coisa não mudou muito. Aí vieram João Bosco e Aldir Blanc que compuseram Prêt-à-porter de Tafetá, na qual usam e abusam de palavras em francês misturando-as com as nossas que são oxítonas, quer dizer, tonicidade na última sílaba. E um pouco mais adiante, Zeca Pagodinho e Zeca Baleiro gravaram o sensacional Samba do Aprroach, em que termos da língua inglesa fazem complemento ao sentido das frases da música.

Vamos nos deliciar com esta seleção musical?

Recanto Galeria03

Você pode ouvir esta seleção no Recanto das Palavras – Galeria
Ou direto no seu computador copiando o endereço abaixo:
http://n90.mediamaster.com:8000/plist/3000130218/jadc01
Agora, as letras das músicas:

Tem Francesa no Morro (Assis Valente)
Donê muá si vu plé lonér de dancê aveque muá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Si vu frequenté macumbe entrê na virada e fini por sambá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Vian
Petite francesa
Dancê le classique
Em cime de mesa

Quand la dance comece on dance ici on dance aculá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Si vu nê vê pá dancê, pardon mon cherri, adiê, je me vá
Dance Ioiô
Dance Iaiá

Não Tem Tradução (Noel Rosa)
O cinema falado é o grande culpado da transformação
Dessa gente que pensa que um barracão prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
Na gafieira dançar o Fox-Trote
Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas no samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone.

Preta-Porter de Tafetá (João Bosco e Aldir Blanc)
Pagode em Cocotá
Vi a nega rebolá
Num preta-porter de tafetá
Beijei meu patuá
Ói, sambá, Oi, ulalá
Mé carrefour, o randevú vai começar

Além de me empurrá
“Kes que sê, tamanduá?
Purquá jé suí du zanzibar”

Aí, eu me criei: pás de bafo, mon bombom
Pra que zangar?
Sou primo do Villegagon
Voalá e çavá, patati, patatá
Boulevar, saravá, sou da Praça Mauá
Dendê, matinê, pas-de-dê, meu petí comitê, bambolê
Encaçapo você.

Taí, seu Mitterrand
Marcamos pra amanhã em Paquetá
Num flamboyant em fleur
Onde eu vou ter colher.

Pompadú? Zulu
Manjei toa bocú!…

Samba do Approach (Zeca Baleiro)
Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat…(2x)

Eu tenho savoir-faire
Meu temperamento é light
Minha casa é hi-tec
Toda hora rola um insight
Já fui fã do jethro tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado é que foi trash…

Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat…(2x)

Fica ligado no link
Que eu vou confessar my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho engov
Eu tirei o meu green card
E fui prá Miami Beach
Posso não ser pop-star
Mas já sou um nouveau riche…

Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat…(2x)

Eu tenho sex-appeal
Saca só meu background
Veloz como Damon Hill
Tenaz como Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Quero jogar no dream team
De dia um macho man
E de noite, drag queen…

Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat…(7x)

* A gravura que ilustra este artigo chama-se “A Pedra de Rosetta em Exposição no British Museum. ₢ Corbis

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Ensinamentos de Ojuobá, o francês que foi os olhos de Xangô

Estava escutando um CD do João Bosco, uma antologia de suas músicas, e lá pelas tantas prestei atenção a uma música que dizia assim: “Costurou na boca do sapo o resto de angu. A sobra do prato que o pato deixou. Depois deu de rir feito Exu Caveira. (…) Tu tá branco Honorato que nem cal. Murcho feito o sapo, Honorato, no quintal. Do teu riso, Honorato, nem sinal. Se o sapo dança, Honorato, tu… babau!”. Uma maneira jocosa de mostrar nossa cultura; porém é mais uma demonstração da penetração das culturas africanas, sim porquê várias foram as etnias que vieram para o Brasil no período escravista. Aqui sincretizaram, influenciaram e foram influenciados numa mistura de culturas quase única em todo mundo. Lembrei de Ewé (pronuncia-se euê), que tem como subtítulo: o uso das plantas na sociedade iorubá. Trata-se de um livro de Pierre Verger, que incorporou o Fatumbi ao seu nome e que era conhecido por Ojuobá. Um seriíssimo trabalho que engloba etnografia, botânica, lingüística e religião.

A primeira parte do livro traz uma excelente explicação sobre a língua iorubá, apresentando a grafia e correta entonação das palavras, demonstrando, assim, que uma língua que transmite sua cultura através da oralidade, nem sempre é bem compreendida. E por ser uma língua tonal, faz-se necessário ‘cantar’ as palavras para que as mesmas tenham o significado correto. Há até mesmo uma pequena explicação sobre o tom musical em que uma determinada sílaba é falada e o tom da sílaba seguinte pode modular, por exemplo, em ré e na sílaba subseqüente modular para mi, marcando o acento agudo. Sem este tipo de conhecimento, o Ofó, ou a ação que a planta deve exercer, e que é também um verbo, pode não funcionar corretamente. A importância é tanta que Verger diz: “Descobrir a existência do verbo atuante no nome das plantas e nos ofó foi para mim semelhante à Eureka de Arquimedes”.

A edição é bilíngüe (iorubá-português), e novamente folheei o livro depois de alguns anos. Lá podemos encontrar vários usos para as plantas, que Verger classificou da seguinte forma: a) 219 receitas de uso medicinal (oògùn), no conceito da medicina ocidental; b) 31 receitas relativas à gravidez e ao nascimento (ìbímo); c) 33 receitas relativas à adoração das divindades iorubás (orixá); d) 91 receitas de uso benéfico (àwúere); e) 32 receitas de uso maléfico (àbìlù); f) 41receitas de proteção contra as de uso maléfico (ìdáàbòbò). Ele ressalta que não é fácil classificar todas as receitas por categoria.

Podemos encontrar receitas para virilidade (aremo), longevidade (ìpé l’áyé), receita pra tratar caxumba, trabalho para conquistar o coração de uma mulher, trabalho para que ouçam nossas opiniões, trabalho para provocar coceira em alguém; e há muito mais conhecimento de uma cultura tão rica que é parte presente da nossa cultura.

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