Recanto das Palavras

Epigrama a um amor que passou

Ninguém pode ser feliz sozinho esta é a máxima que foi bem anotada pelo poeta e faz parte daquilo que chamamos de “o sentido da vida”.

Por acaso, você já experimentou ficar completamente só e sem qualquer perspectiva de, um dia, vir a compartilhar seu mundo com outra pessoa, em especial, aquela pessoa especial? Sinceramente, não dá!

Então, por que não curtir a belíssima versão para Epigrama (nº8), da Cecília Meireles, feita por Maurício Maestro, do grupo musical Boca Livre?

Encostei-me a ti,
sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem
depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí.

O interessante é que nem sempre temos a certeza, num primeiro momento, que aquela pessoa É a pessoa. O tempo se encarrega de nos fazer ver que a escolha para que esta, seja aquela que irá caminhar conosco até o fim do fim não era bem a mais indicada. Mas quem é que vai dizer que as coisas do coração têm razão? Não tem e ponto final.

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Um pouco de Amália Rodrigues

Minha casa, a casa em que cresci, foi um ambiente extremamente musical. Os dias, durante muito tempo, eram permeados por trilhas sonoras que variavam do Baião ao Swing das Big Bands; de árias de ópera a Waldir Calmon “feito para dançar”; de Billie Holiday a Ângela Maria, passando por Ademilde Fonseca cantando chorinho; Orlando Silva, Cauby Peixoto, Chico Alves, Nat King Cole, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Sara Vaughan sempre estavam cantando alguma coisa na antiga vitrola Gründig que meu pai comprara bem antes de eu nascer. Beatles e Rolling Stones também apareciam por lá. Meu pai tinha um móvel gigantesco em que cabiam dezenas e dezenas de discos. Acredite: havia discos em 78rpm!

Neste exato momento, ouço o CD com as gravações de várias composições dos Beatles, mas em ritmo de chorinho – em sua maioria –, que comprei faz algum tempo. E, lembrando, retomando os tais escaninhos da memória fiz essa pequena retrospectiva apenas para dizer que muito tempo depois dessa época, quando comecei a trabalhar mantive o saudável hábito de comprar LPs e depois CDs para me deliciar com as músicas que ouvia e as que passei a gostar nos anos seguintes.

O engraçado de tudo isso é que essas lembranças remeteram a uma cantora portuguesa, a Amália Rodrigues. Sim, lá em casa também se ouvia “De quem eu gosto nem às paredes confesso”, ou “Foi por vontade de Deus que eu vivo nesta ansiedade”, com o jeito inconfundível da poderosa e belíssima voz da Amália Rodrigues. E foi numa dessas navegadas por mares nunca d´antes navegados – Pô, não foi bem assim, mas que fica bacana colocar no texto você não pode negar, certo? –, que me deparei com o vídeo abaixo. Por favor, ao ver e ouvir, faça-o com a devida reverência, pois você está diante de uma das maiores cantoras que já passaram por este mundo.

Anos depois dessa gravação, Caetano Veloso a interpretou de forma muito interessante. Tanto que, ao assistir um documentário sobre a cantora, uma das cenas mais emocionantes ocorre durante um show. Ela, no palco, identificou a presença do Caetano Veloso na plateia e o convidou para cantarem juntos. E ali, de uma forma ou de outra, mais uma vez, não apenas a, desculpem a falta de modéstia, linda Língua Portuguesa uniu duas culturas que, se não são gêmeas, são similares nas estruturas de pensamento e, principalmente, no sentimento e também na melancolia disfarçada em alegria que trazemos e eles, os portugueses, explicitam em seus versos pessoanos. As entonações, as articulações e até mesmo a forma de pronunciar certas palavras podem não ser tão parecidas, mas, não podemos negar que nem o Atlântico é capaz de separar o óbvio: a sonoridade melódica dessa língua neolatina.

Ouvir essa música e outras mais, me remetem à infância, à rua em que cresci. Havia uma pequena colônia portuguesa não apenas nessa rua, mas também nas transversais e paralelas. Uma das imagens mais marcantes e, que sintetizam a dor e a melancolia que os portugueses trazem em seus genes era a imagem das viúvas. Sim, as viúvas portuguesas guardavam luto eterno. Quando da morte de seus maridos, ouviam-se gritos de lamento e também um murmuroso carpir da parentada. Nós crescíamos na rua e víamos as viúvas sempre de luto, vestidas de preto dos pés à cabeça, pranteando em silêncio, em seu caminhar e à sua maneira a ideia de que, talvez, assim como acontece com D. Sebastião, o Joaquim ou o Manoel voltassem algum dia. E, assim, anos depois, quando comecei a tomar conhecimento da obra de Fernando Pessoa, li em “Mar Português”, a seguinte frase: Ó mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?

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Eternamente, um grande amor

As marcas que um grande amor podem deixar não se apagam. Elas podem ser disfarçadas ou ficar esmaecidas em nossos corações como uma fotografia desbotada, que olhamos em velhos álbuns ou que estavam esquecidas no fundo de uma gaveta.

Alguns devem pensar que, por mais que usemos das técnicas modernas, a tonalidade das cores não será a mesma do momento em que essas metafóricas fotografias foram tiradas. É uma coisa meio heraclitiana, em que nunca se toma banho duas vezes no mesmo rio. Mas quem disse que Heráclito estava certo quando se trata das coisas do coração? Quem sabe a tonalidade seja mais viva e as cores mais vívidas em outro momento? Cada momento é uma realidade única de maneira impressionista. Mas, por qual motivo, não pode ser expressionista e revelar à luz, saindo das sombras em que estiveram guardadas, a paixão e o amor inesquecíveis?

É como na letra da canção apresentada: “Só mesmo o tempo pode revelar o lado oculto das paixões”. Surgem, então, as surpresas que o tempo reservou para um momento, que até pode não ser o certo, mas foi este o momento. Parece tão simples, mas é tão complexo quanto o tecer de uma teia. É preciso engenho e arte para entender como a aranha a constrói e como os corações procuram os nós a reatar.

Quanto já se escreveu, cantou e se imaginou o amor que nunca se vai esquecer. Algumas mulheres foram felizes por terem homens extremamente apaixonados por elas como, Matilde Urrutia, a quem Neruda escreveu versos como no poema La Reina. Outras, como Paty Harrison, foi brindada com duas músicas por dois músicos geniais. George Harrison, que compôs Something, quando estavam casados e Eric Clapton, que compôs Layla, quando estava apaixonado pela mulher de seu melhor amigo, o mesmo George Harrison. Outros casos devem existir.

Realmente, o grande amor não dá para esquecer. É Unforgetable.

Pense, lembre… um breve sorriso surgiu em seu rosto. Pronto: valeu a pena.

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Um pedacinho do céu

Muito já se falou ou especulou sobre o acidente do avião mais moderno que existe e vitimou mais de 200 pessoas nesta semana. Não se sabe se foi falha técnica ou humana e, acredito que acabarão culpando o piloto como geralmente se faz. Porém, o que ninguém saberá, a não ser que tenha algum grau de parentesco, é como se sente uma família quando não se tem um corpo para enterrar.

Lembrei, ao escrever, de uma antiga canção do Chico Buarque, que se chama Angélica, (veja o vídeo no Youtube) uma homenagem a Zuzu Angel, uma brasileira que teve um filho dado como desaparecido durante a época da Ditadura militar no Brasil. Em duas partes a letra diz:

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

(…) só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar.

A escuridão do mar é aonde estão os corpos dos tripulantes e passageiros desse malfadado voo da Air France. Assim como foi sepultado meu irmão mais velho que, ao se dirigir em voo de helicóptero para uma plataforma de petróleo na Bacia de Campos, nunca mais voltou. O aparelho, com apenas 500 horas de voo, perdeu uma das pás do rotor e caiu no mar, matando as 11 pessoas entre tripulantes e passageiros.

Isso ocorreu em 1983, eu tinha 20 anos e ele, 29, prestes a completar 30 anos de idade quando foi sepultado no mar. Oficial da Marinha Mercante, primeiro colocado em sua turma, viajou o mundo inteiro e nos trazia coisas lá de fora que nem imaginávamos existir. Casado, um filho. Minha cunhada estava grávida de minha sobrinha que acabou nascendo no dia do aniversário dele, em 11 de maio. Até hoje sinto saudades desse meu irmão que me ensinou tantas coisas. Várias vezes eu já tentei escrever sobre ele e essa saudade. Confesso que, uma noite dessas, eu até comecei, e o faria ouvindo uma das músicas que mais gostávamos, um chorinho, o Pedacinho do Céu. Parei logo nas primeiras primeiras frases. Não pude continuar.

pedacinhoClique sobre a imagem e uma nova janela abrirá. Ouça a música

O que não se compara e não se deseja a ninguém, foi o que aconteceu a meu pai. Ver um filho ir antes dele e não ter um corpo para enterrar. Eu vi meu pai morrer aos poucos nos 18 anos seguintes. Durante um bom tempo, ele – assim como todos nós – imaginávamos que tudo fosse apenas um sonho ruim e que ele voltaria a qualquer momento. E é essa sensação de perda sem confirmação que mais atormenta quem perde um parente ou ente querido numa situação como essa.

Desejo apenas que o tempo sirva para confortar aqueles que terão que tocar suas vidas sem ter a esperança de saber o que aconteceu e aonde estão as pessoas que se foram. Não sou lá muito ligado em certas coisas, mas desejo que todos estejam num pedacinho do céu.

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Somos parte do sonho alheio?

Fazer parte do sonho alheio é algo que não se pode deixar de estar livre, mas, certamente, nem sempre este sonho pode se concretizar e, por esse motivo, é muito provável que o sonho vire pesadelo. Esta pretensa conjectura surgiu após refletir sobre uma conversa por telefone, que não tinha nada de pessoal, mas descambou do profissional para o pessoal devido a infinidade de assuntos que foram sendo propostos e continuados.

Falamos sobre as coisas do mundo, da Wieslaw Rosocha © Images.com/Corbisimpaciência das pessoas, da tsunâmica crise econômica e, lá pelas tantas, surgiu a questão do “atingir os objetivos pessoais”. E não é que concluímos que muitos desses objetivos são sonhos geralmente inalcançáveis? Não lembro o nome de pensador ou intelectual citado por minha amiga que estava do outro lado da linha. Lembro, apenas, que ela citou uma frase parecida com “ao ser humano não foi dado o direito à felicidade”. Ah, sim! Agora, enquanto escrevia lembrei quem proferiu a frase. Foi Slavoj Zizek, sociólogo e filósofo esloveno que tem sido uma das vozes mais racionais dos últimos tempos. Qualquer dia desses eu conto como tomei contato com sua obra.

Portanto, muitas das vezes, por não sabermos como atingir este sonho que é a felicidade eternamente perseguida, acabamos por fazer do outro, no sentido de individualidade que talvez “complete”, o fiel depositário desse objetivo. O que realmente não temos consciência em um momento, digamos, em que usamos antolhos é não observamos todo campo de visão que nosso pensamento pode nos permitir e, assim, procuramos e explicitamos essa necessidade colocando a outra pessoa na situação já citada de fiel depositária. Também inconscientemente, não somos capazes de mensurar o quanto esta condição “imposta” ao outro pode vir a ferir ou desestabilizar qualquer ordem ou padrão anterior, quando, quem nos vê assim, de alguma forma ou de outra, coloca os pés no chão. Geralmente, surgem palavras pedindo perdão e, o pior de tudo, o silêncio, porém, nos observando como se estivesse à espreita.

E o que essa amiga me disse foi: “Jorge Alberto, nós precisamos ser delicados para lidar com os sonhos alheios. Não podemos ser rudes, por mais que aquilo venha a ferir nossa alma.” Eu confesso que fiquei um tempo pensando e até em silêncio durante essa parte do telefonema e essa amiga Dread and Dream by Asger Jorn © Christie's Images/CORBISpareceu entender. Desviei do assunto com alguma brincadeira que não lembro mais. Sim, foi uma espécie de fuga naquele momento.  Acho  que falei algo bobo como “Ah, ariano é cabeça dura, malcriado, manhoso…”, como se fosse para explicar – a mim mesmo – sem que ela, amiga, soubesse que eu procurava uma desculpa para alguns atos impulsivos meus. Sinceramente, eu prefiro muito mais me manter tranquilo do que explodir e depois ter que rever o que fiz ou expus. Não vejo mal algum em pedir desculpas, mas há certas coisas que realmente nos fazem ultrapassar o limite que lutamos tanto para conseguir manter e, se possível, ampliar cada vez em termos de tolerância, entendimento e compreensão.

Realmente devemos ser delicados e não falar algo que venha a magoar quem está nos pondo nesta posição de fiel depositário de sua (dela) felicidade. O silêncio, neste momento, é de bom-tom. Devemos, sim, deixar que tudo flua naturalmente e a pessoa que nos quer assim ou assado, entenda que nosso mundo foi abalado e que uma atitude intempestiva pode estar a caminho se não souber, o que nem sempre se sabe, como lidar com o que estão sentindo ou pretendendo.

Não é a todo momento que conseguimos manter o silêncio e explodimos em palavras que podem magoar. Entretanto,  esperamos que entendam o motivo dessa cataclísmica explosão em forma de palavras, pois o abalo sísmico foi provocado por quem nos levou a ultrapassar o limite da tolerância, do entendimento e da compreensão.

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