Como duas músicas podem ensinar os jovens a entenderem as palavras e iniciarem um diálogo.
Percebi, ao ditar alguns temas nas primeiras aulas deste ano, para as turmas que iniciavam o 2º grau que, ou eu estava perdendo a dicção (seria um AVC em plena aula?) ou meus alunos eram surdos. Fiquei um tanto assustado com ambos fatos. Na altura de segunda semana de aulas, eu constatei que: não perdera a dicção (e não tivera um AVC… ufa!) e que meus alunos não são surdos. Na verdade, a maioria não conhece as palavras, o que é muito pior!
Passei a observar os diálogos deles, não apenas ao se dirigirem a mim, mas também, quando se dirigem uns aos outros. Infelizmente, o universo vernacular deles é limitadíssimo. Coisa do tipo:
- E, aí? Tá ligado na parada?
- Sinistro…
E termina a conversa.
Ao mesmo tempo, as músicas que ouvem – o tal estilo “proibidão” – ou funk com três ou quatro frases em que a concordância apanha mais que boi fujão e as rimas(?) que sempre terminam em “ão” ou “inho”, para poder juntar escatologia com descrição de uma cena de sexo, por sinal, de péssima qualidade literário-musical e sexual. Se nem ao menos é possível descrever uma coisa prazerosa com qualidade, imagine o uso da Língua Portuguesa no cotidiano? Disso podemos observar dois fatos gritantes, a saber: 1 – a leitura é inexistente em qualquer nível; 2 – Não ouvem frases bem construídas ou palavras que enriqueçam em qualidade e quantidade os seus diálogos e, consequentemente, a escrita.
Comecei a me policiar para não usar palavras que fujam muito desse “mundo”, sem, porém, perder a qualidade. Penso que estarei, assim, contribuindo para que enriqueçam o vocabulário.
Por qual motivo citei música e desconhecimento do vocabulário? Simples: As letras das músicas, apesar de algumas licenças poéticas, são excelentes fontes de aquisição de vocabulário e, também, uma forma de aprender a usar as palavras, construir frases, pensamentos e, enfim, comunicar uma ou várias idéias.
Imagine, portanto, uma versão atual, sendo vertida para o “vasto” universo vocabular dos nossos estudantes, para “Sinal fechado”, do Paulinho da Viola e “Amigo é pra essas coisas”, do Silvio Silva Jr. e Aldir Blanc, que são crônicas, ou diálogos musicados, em que os interlocutores falam sobre suas vidas, cotidiano e perspectivas. Vejamos como ficariam:
- E aí?
- Sinistro…
Triste, não?
Mas, para a nossa alegria, abaixo estão as músicas com suas respectivas letras.
Amigo é para essas coisas
mpb4
Composição: Silvio Silva Júnior/Aldir Blanc
- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais…
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena…
- Pô…
- O que é que há?
- Rosa acabou comigo
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus sabe o motivo.
- Deus é bom!
- Mas não foi bom pra mim…
- Todo amor um dia chega ao fim.
- Triste.
- É sempre assim…
- Eu desejava um trago.
- Garçom, mais dois!
- Não sei quando eu lhe pago.
- Se vê depois.
- Estou desempregado.
- Você está mais velho..
- É…
- Vida ruim…
- Você está bem disposto.
- Também sofri.
- Mas não se vê no rosto.
- Pode ser…
- Você foi mais feliz.
- Dei mais sorte com a Beatriz!
- Pois é…
- Pra frente é que se anda.
- Você se lembra dela?
- Não..
- Lhe apresentei!
- Minha memória é fogo!
- E o l´argent?
- Defendo algum no jogo.
- E amanhã?
- Que bom se eu morresse!
- Pra quê, rapaz?
- Talvez Rosa sofresse.
- Vá atrás!
- Na morte a gente esquece.
- Mas no amor agente fica em paz.
- Adeus…
- Toma mais um!
- Já amolei bastante.
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo.
- Não tem de quê.
- Por você ter me ouvido.
- Amigo é prá essas coisas.
- Tá…
- Tome um cabral!
- Sua amizade basta.
- Pode faltar.
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará.
Sinal fechado
Paulinho da Viola
Composição: Paulinho da Viola
- Olá, como vai ?
- Eu vou indo e você, tudo bem ?
- Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você ?
- Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe …
- Quanto tempo… pois é…
- Quanto tempo…
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios…
- Oh! Não tem de quê…
- Eu também só ando a cem…
- Quando é que você telefona ? Precisamos nos ver por aí.
- Pra semana, prometo talvez nos vejamos. Quem sabe ?
- Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)
- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança.
- Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa, rapidamente.
- Pra semana.
- O sinal …
- Eu espero você.
- Vai abrir…
- Por favor, não esqueça.
- Adeus…