Recanto das Palavras

Escrever livro dá dinheiro mesmo

Há algum tempo, eu escrevi um artigo sobre um escritor que reclamava por não ganhar dinheiro suficiente com os seus livros e, por isso, fez um relato de um programa do governo Roosevelt, associado ao New Deal, que era uma espécie de PAC para o mercado editorial norte-americano durante os anos de recessão seguintes à crise de 1929.

Jim Dandy © Images.com/Corbis Agora, lendo a seção de livros do New York Times, vejo a seguinte manchete: Audrey Niffenegger Receives $5 Million Advance for Second Novel (algo como Audrey Niffenegger recebe 5 milhões de dólares em adiantamento por seu segundo romance). Convenhamos que não é uma grana para ser desprezada, mesmo que não seja paga em Euros e, certamente, resolveria a vida de muitos pretendentes a escritor. Se a quantia revela o tamanho do talento, essa escritora deve ser talentosa até dizer chega.

Então, surge um questionamento: estando numa das piores crises econômica que já aconteceram desde a invenção do Capitalismo, os livros são produtos que dão lucro? Acredito que sim. Por pior que seja a situação da leitura e divulgação de conhecimento através dos livros, este ainda é um lazer barato; mesmo que concorra com DVD, internet, iPod e que tais.

Lembro que durante o regime militar, os livros não deixaram de vender mesmo havendo censura. Durante a época da inflação galopante, o livro continuou vendendo e se adaptando ao momento. Há várias formas de fazer o livro ter um preço acessível ao público em geral, sendo que uma delas é usar papel de qualidade pouquinha coisa inferior ao que se está acostumado e também diminuir as dimensões do mesmo, isto é, dos tradicionais formatos 14 centímetros de largura x 21 centímetros de comprimento ou 16×23 para, por exemplo, 12×18 (livro de bolso).

Então, a escritora, segundo a reportagem, após seis anos de lançamento de seu livro de estréia entregou os originais de seu novo romance, Her Fearful Symmetry, ao seu editor e de volta recebeu o polpudo cheque. Dizem que o leilão pela compra dos direitos foi bastante acirrado. O livro é um thriller de mistério contando a história de dois gêmeos que recebem como herança um apartamento nas proximidades de um cemitério em Londres.

A autora é artista plástica e professora da Columbia College Chicago. É preciso fazer uma ressalva: o mundo dos livros não é de todo desconhecido por ela, que está baseada no Center for Book and Paper Arts da mesma instituição. Tiremos como exemplo, não sei se de talento para escrever ou para o marketing pessoal, o mago. Foi letrista do Raul Seixas e, de repente, começou a escrever livros místicos, sendo o primeiro deles sobre vampirismo, que misteriosamente desapareceu das livrarias tão logo o autor começou a ficar famoso por falar de suas viagens místicas por caminhos mais iluminados.

O que tem intrigado a crítica literária lá dos EUA é o fato de investirem tanto em um segundo livro devido o primeiro livro, o de estréia, ter vendido feito pão quente. Na reportagem, é apresentada a história de Charles Frazier, autor de Could Mountain, que deu origem a um filme do mesmo nome, dirigido por Anthony Mingela e o roteiro foi escrito pelo próprio autor do livro. É relatado que ele, autor, recebeu 8 milhões de dólares de adiantamento pelo segundo livro e as vendas nem chegaram perto do que esperavam.

Vale a pena ser escritor ou não?

* Este artigo foi criado a partir da leitura da matéria Audrey Niffenegger Receives $5 Million Advance for Second Novel, de Motoko Rich, para o New York Times Books, de 10/03/2009.

Arquivado como:Autor, Aventura, Citações, Comportamento, Comunicação, Crônicas, Cultura, Economia, Educação, Escritores, Fernando Pessoa, Guimarães-Rosa, Jornalismo, Leitor, Literatura, Livros, Luis Cardoso, Machado de Assis, Mercado Editorial, Opinião, Romance, mulher

FLIP 2008 – Luís Cardoso em entrevista exclusiva

O escritor timorense, Luís Cardoso, concedeu gentilmente esta entrevista exclusiva por e-mail ao Recanto das Palavras. Ele é autor dos livros “Crónica de uma travessia” (1997), “Olhos de coruja, olhos de gato bravo” (2001) e “A última morte do coronel Santiago” (2003). Em breve terá o livro Réquiem para o navegador solitário ou Réquiem para o navegante solitário – o título definitivo ainda está em estudos -, lançado no Brasil.

Espero que vocês aproveitem e passem a conhecer melhor a sua obra e suas idéias.

Recantos das PalavrasDentre as suas diversas leituras, o senhor poderia dizer que foi influenciado por algum ou alguns autores em particular?

Luís Cardoso – Fui muito mais influenciado por todos os livros que me passaram pelas mãos, do que pelos autores. Se tivesse de escolher um livro, seria a Bíblia. Li-o até ficar com as páginas rotas. Era o único que tinha lá em casa. Não tive sorte de ler outros. À colónia portuguesa de Timor não chegavam livros. Apenas desterrados políticos. Homens que foram para lá mandados pelo Salazar, por causa das suas ideias que do ponto de vista do regime eram subversivas. De uma maneira ou de outra, esses homens eram livros abertos. Só mais tarde, e muito mais tarde, dei conta que por detrás dos livros se escondiam os autores. Foi assim que me interessei por José Cardoso Pires, Sofia de Melo Breyner Andresen, Ferreira de Castro, Rui Cinatti e António Lobo Antunes O timorense Borja da Costa. Os brasileiros Jorge Amado e Érico Veríssimo. Lamento não ter lido na minha juventude Guimarães Rosa. Tenho uma grande admiração e respeito pela obra dos angolanos Luandino Vieira e Pepetela.

Recantos das Palavras - No atual quadro da literatura de língua portuguesa, o senhor acredita que esteja ocorrendo alguma renovação e, por conseguinte, talvez, uma maior divulgação de autores de língua portuguesa em outros países? Lembro de quando Saramago foi agraciado com o Nobel de Literatura, alguns veículos de mídia de língua inglesa denominaram a indicação e vitória como sendo algo inusitado. O senhor, em seu livro, “Crônicas de uma travessia”, colocou a língua portuguesa como uma espécie de elo de ligação entre os diversos grupos culturais e lingüísticos do Timor Leste.

Luís Cardoso – Sem querer polemizar o assunto, julgo que em vez de falarmos em renovação ou ruptura talvez fosse mais acertado dizer continuidade. A língua portuguesa já teve o seu esplendor no passado, sobretudo com os grandes vultos brasileiros e portugueses. A atribuição do Nobel em certa medida premeia esse passado, bem como os autores consagrados de hoje, cujas obras lemos e amamos. E há ainda que referir uma nova geração que está a despontar com vigor, como Francisco José Viegas, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Ana Paula Tavares, Luíz Rufatto, Pedro Rosa Mendes, Adriana Lisboa e outros tantos, fazendo da língua portuguesa, não só esplendor de Portugal, mas de todos quantos a utilizam e a potenciam como uma língua universal.

Recantos das Palavras - O senhor acredita que os autores de língua portuguesa tanto no Brasil, África, Europa, Ásia e Oceania possam vir a manter uma espécie de intercâmbio para a formação de um bloco, ou pensar em algo semelhante para, quem sabe, dar maior visibilidade à língua portuguesa no cenário mundial?

Luís Cardoso – O passado colonial ainda é muito recente. Ressentimentos ainda não foram totalmente excluídos, mais por falta de vontade das partes interessadas do que por causa de mágoas resultantes da descolonização. Mas existe uma relação afectuosa e saudável entre os escritores dos vários espaços da lusofonia. Alguns só puderam ser conhecidos noutros países pela mão de outros que lá chegaram primeiro.

Recanto das Palavras – Lendo um artigo num jornal daqui do Rio de Janeiro, no qual o articulista falava sobre o desconhecimento quase que total, exceto autores como Neruda, Juan Rulfo e Jorge Luís Borges da literatura dos países vizinhos do Brasil na América Latina, o senhor acredita que o mesmo se dá entre os países de língua portuguesa, isto é, autores moçambicanos, angolanos, caboverdianos, brasileiros, portugueses e timorenses, como o senhor, são praticamente desconhecidos do público leitor de língua portuguesa?

Luís Cardoso – Acredito que o desconhecimento é por falta de uma política dos respectivos países na divulgação dos seus autores. Sendo certo que muitas vezes lhes faltam meios. Mas também se não se mostrarem interessados ninguém lhes dá a mão nessa tarefa. Existindo a CPLP (creio que existe) poderia ter um papel nesse sentido. Fazer circular os livros dos autores de língua portuguesa no espaço lusófono. Um livro vai e fica e muitas vezes frutifica..

Recanto das Palavras - No terreno político, o senhor poderia nos falar da relação de sua obra com o atual momento político de seu país. Pois, em “Olhos de coruja, olhos de gato”, o senhor penetra mais profundamente no imaginário do povo timorense, para daí criar esta obra.

Luís Cardoso - Tento não ser influenciado pelo momento político do meu país. Como a própria expressão diz, o momento político está circunscrito a um tempo, enquanto um livro deverá falar de um tempo que fosse intemporal. Transversal a todas as épocas, turbulentas ou vivendo anos de ouro.

Recanto das Palavras - Gostaria também que o senhor nos falasse sobre o livro “A última morte do Coronel” Santiago. Seria uma obra que podemos classificar como Realismo Mágico?

Luís Cardoso - Eu gosto muito da expressão realismo mágico. Se a minha obra se enquadra nessa classificação, não me ofende de maneira nenhuma. Fico muito honrado por estar catalogado ao lado dos latino-americanos. Sei que o que escrevo tem muito a ver com a vida dos timorenses. Em que o real e o fantástico coabitam o mesmo espaço, sem que os tempos fossem sempre coincidentes, pairando sobre os vivos a presença tutelar dos antepassados. Em Timor também tivemos os nossos coronéis. Títulos honoríficos concedidos pelas autoridades coloniais às autoridades tradicionais como forma de respeito e para as manter subjugadas.

Recanto das Palavras - Em breve o senhor participará da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). Além do lançamento de seu livro “Requiem para o Navegador solitário”, outros livros seus estão previstos para lançamento no Brasil?

Luís Cardoso - Fico muito honrado por essa distinção de ser publicado no Brasil. Por enquanto é apenas esse livro. Pode ser que depois dessa obra, os brasileiros se interessem por outros. Quero celebrar o momento. O resto virá depois.

Recanto das Palavras – O senhor poderia emitir uma opinião sobre o Acordo Ortográfico, que pretende unificar algumas normas ortográficas e gramaticais para os países de língua oficial Portuguesa?

Luís Cardoso – Sendo a língua portuguesa, de todos, julgo que deverá ser do interesse de todos, fazer uma discussão aberta, sem ser apenas uma coisa restrita aos fazedores de opinião, aos linguístas, aos professores, aos editores, aos escritores, aos políticos, dado que as populações têm andado arredadas da discussão. Espero que tragam o tema para a praça pública, o local onde verdadeiramente a língua se renova e se perpetua das mil e variadas formas.

Recanto das Palavras - No artigo intitulado “Um brevíssimo olhar sobre a literatura do Timor”, o autor cita o senhor como sendo “o mais genial dos autores timorenses”. O senhor poderia nos falar sobre a literatura de seu país?

Luís Cardoso - Tenho algum pudor quando me colocam adjectivos. Não quero ser conotado como o escritor oficial de Timor-Leste. Sou um cidadão timorense que não está amarrado a qualquer compromisso. Existem outros escritores timorenses, cujos trabalhos poderão dar fruto se tiverem em conta as experiências dos escritores dos países africanos de expressão portuguesa e mesmo do Brasil. Nascerá assim uma nova literatura escrita com base na rica e imaginativa literatura oral. Por minha parte darei o meu contributo. Depois da minha morte, se a minha obra justificar, poderão dizer que fui um bom escritor. Génio, génio mesmo, é esse da lâmpada do Aladino.

Recanto das Palavras – O senhor gostaria de deixar alguma mensagem para os leitores brasileiros?

Luís Cardoso - Espero que os brasileiros gostem do livro. Por enquanto ainda não sei se o título será Réquiem para o navegador solitário ou Réquiem para o navegante solitário. Desde que o livro atravesse o mar, não me importo nada. Depois fica por sua própria conta. Vai ter de mudar de meios de transporte. Brasil é mais terra que mar. Sei que vai ser bem tratado. Os brasileiros costumam ser muito hospitaleiros. Tive a prova disso quando lá fui no tempo em que era membro da Resistência Timorense.

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