Recanto das Palavras

Saramago e os 140 caracteres

O prestigiadíssimo ganhador do Nobel de Literatura, José Saramago, disse, numa entrevista ao O Globo, que o uso do Twitter, o microblog que limita as mensagens ao número máximo de 140 caracteres nos fará involuir ao nível da comunicação por grunhidos. Até entendo e quem sou eu para confrontar um escritor, ainda mais quando ele foi premiado com o Nobel e, para quem não sabe, o único que utiliza a língua portuguesa para escrever seus livros a ter recebido este prêmio. Entretanto, acredito que possa ter havido alguma desinformação ou informação pela metade.

Em apenas 380 caracteres, Fernando Pessoa nos deu isto:

marsalgado

Tudo bem que, hoje, o pessoal não seja lá muito amigo das palavras e o oceano vernacular se limite a, quem sabe, 600 palavras dentro do Universo que é a Língua Portuguesa. Mas, mesmo assim, há que se encarar o Twitter, não como um meio de comunicação para mensagens longas. Tanto que as empresas, as organizações capitalistas, vislumbram estes mesmos 140 caracteres como sendo extremamente válidos para indicarem seus produtos. Mensagens rápidas e certeiras, o que constitui o sonho de todo marqueteiro e, talvez, dependendo do ponto de vista, o paraíso ou o inferno para os redatores das agências de publicidade. Lógico que sabemos que se faz necessário separar o joio do trigo. Imagino que o Saramago tenha dito que percebera uma enorme massa de informações imbecis e idiotizantes circulando por aí. Mas, o que é a humanidade se não alguns bilhões de almas que seguem seu rumo ajudadas pela genialidade de algumas poucas milhares de almas geniais que passaram por aqui até hoje? Deixemos que a bobagem prossiga, mas que possamos ter como nos defendermos dessas barbaridades como o internetês e o miguxês, por exemplo.

Fico aqui a me perguntar se, quando surgiram as primeiras tabuinhas de argila contendo aquilo que os arqueólogos e historiadores classificaram como os primeiros documentos escritos produzidos pela humanidade, se havia algum tipo de limitação à quantidade de caracteres – os cuneiformes dos sumérios – se isso faria com que chegássemos ao que temos hoje. Fico também imaginando que, hoje, temos no alfabeto latino 26 sinais que, ao serem misturados, formam as palavras que compõem a maioria das línguas ocidentais e, também, o alfabeto cirílico com seus 33 sinais, sendo que 10 deles são vogais, se isso impediria que escrevêssemos uma, dez, mil, um milhão de palavras. Claro que não. E eu nem vou falar sobre os alfabetos orientais que, em dois ou três traços uma idéia pode ser expressa com poesia. A quantidade de sinais e a formação das palavras, para quem as conhece suficientemente, serão, sim, um manancial inesgotável de alternativas para que nós, pobres mortais que brincamos de escrever, possamos nos comunicar. Sim, eu odeio o internetês. Vocês jamais lerão um texto meu contendo palavras escritas com esses “grunhidos”.

E, em se falando em comunicação, como esquecer a escrita utilizada nos antigos telegramas em que “pt” e “vg” significavam respectivamente um ponto e um vírgula. As mensagens eram sucintas e diretas e, nem por isso, a língua involuiu. O que faz a língua involuir é a má distribuição de renda que não permite que tenhamos acesso à cultura, aos livros, aos dicionários, por exemplo. E, por falar em dicionários até pouco tempo eu não sabia que participava de uma confraria dos, digamos, amantes dos dicionários.

Tudo isso porque, um belo dia, recebo um telefonema de uma repórter do Jornal do Brasil, que me pediu para passar o telefone de um amigo meu que é editor e, alguém lhe disse, que ele era um desses amantes de dicionários e enciclopédias. A conversa evoluiu e acabei sendo entrevistado ali mesmo e contando para ela que eu também tenho o hábito de ler dicionários e isso, acredite, vem desde a mais tenra idade; com toda certeza, motivado por meu pai que me presenteou com um dicionário enciclopédico da Lello quando eu fiz dois anos de idade. Na bagunça que se transformou a minha biblioteca, mais conhecida por Bagunçoteca, e após algumas mudanças de residência, eu me deparei com esse dicionário e li a dedicatória que meu pai escreveu. Comecei a folhear e a chorar. Não dá pra explicar. (Leia o artigo Enciclopédias, uma grata surpresa).

Voltando aos tais 140 caracteres, eu ainda acho que, se o pessoal passar a ler mais não teremos mensagens que nos levarão a grunhir, mas sim, teremos pessoas que passarão a fazer uso de toda pujança e diversidade que a língua portuguesa nos permite. É tão simples saber como usá-la que até nos complicamos.

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Bibliotecas digitais: mais duas

Machado de Assis e The British Library

A Brasiliana, um site ligado  a USP (Universidade de São Paulo), digitalizou toda obra de Machado de Assis e você poderá ler em formato .pdf, as primeiras edições dessas obras. Além disso é possível fazer busca por trecho das obras, o que é muito interessante.

machadobrasiliana

 Clique sobre a imagem

A outra notícia é sobre a British Library que abriu seus 630km de acervo para consultas online

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Fonte: [Boletim do PNLL]

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Palavras de amor lembradas daqui a 400 anos

Indique poemas, músicas e cenas de filme que falem de amor e que serão lembradas nos próximos 400 anos.

amor Você, pelo menos uma vez na vida, declamou, copiou e enviou, ou mesmo escreveu um poema de amor para alguém. Ao mesmo tempo, também pelo menos uma vez na vida, indicou ou representou o amor que sentia por alguém usando uma música. Que tal, então, indicar como sendo “As palavras de amor que serão lembradas daqui a 400 anos? Para isso, basta escrever a letra de música ou a poesia nos comentários ao final deste artigo.

Que o poder das palavras de amor seja, preferencialmente, escrito em Língua Portuguesa. Traduções são também recomendadas. Devem ser indicadas poesias, músicas e até mesmo cenas de filme (com legenda) que falem de e do amor.

Foi feita uma pesquisa nos EUA, pela NPR (National Public Radio), motivada pela eternidade das palavras de Shakespeare, que até hoje é encenado e seus poemas, que parecem ser declamados a cada segundo, sobre quais as poesias e músicas da atualidade seriam eternizadas durante os próximos 400 anos. Isto é, o que as pessoas do século 25 declamarão e quais músicas cantarão para as suas almas gêmeas.

Lá nos EUA, em termos de poesia, foram escolhidas obras como o “Soneto 20”, de Pablo Neruda e Quando Fores Velha (When You Are Old), de W.B. Yeats. Veja um vídeo com a tradução deste poema no Youtube.

No campo musical, Bob Dylan foi teve algumas de suas músicas indicadas. Além dessas, In My Life, dos Beatles também foi bastante indicada. Eu mesmo, bem antes de tomar conhecimento dessa pesquisa, já escrevera algo sobre essa música, no artigo intitulado Em minha vida. Por toda minha vida.

Como poesia, eu indico Aparição Amorosa, de Carlos Drummond de Andrade.

E música, eu indico Travessia, do Milton Nascimento.

Travessia

Milton Nascimento

Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

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Ruas com nomes de escritores I

Rua Machado de Assis em várias cidades brasileiras.

Este é um novo projeto do Recanto das Palavras, as ruas, avenidas e praças de várias cidades do Brasil que levam nomes de escritores famosos. Como não poderia deixar de ser, aquele que inaugura a série é Machado de Assis, que ano passado completou 100 anos de morte e pelo Brasil inteiro, e também no exterior, recebeu homenagens por ser considerado o maior de todos os nossos escritores.

rpamachado Clique sobre o mapa para ampliar

A busca se limitou a 10 cidades por ítem, para que não sobrecarregar a paciência dos leitores e também deste que vos escreve. Se na cidade há uma ou várias ruas com o nome de Machado de Assis e esta não foi citada no mapa em questão, será um prazer receber sua colaboração para que a mesma seja relacionada. Se quiser, também pode mandar uma foto da rua. Também é interessante se você tiver alguma informação pitoresca sobre a rua como, por exemplo, não haver uma livraria sequer na rua que leva o nome do autor.

As cidades que tiveram uma Rua Machado de Assis listada são:

  • Balneário Gaivota (SC)
  • Uberlândia (MG)
  • Sarandi (PR)
  • Barreiras (BA)
  • Bauru (SP)
  • Caxias do Sul (RS)
  • Aparecida de Goiânia (GO)
  • Luiziânia (GO)
  • Ponta Grossa (PR)
  • Capivari de Baixo (SC)

As cidades que tiveram uma Avenida Machado de Assis listada são:

  • Alta Floresta do D´oeste (RO)
  • Juazeiro (BA)
  • Quirinópolis (GO)
  • Paraíso do Tocantins (TO)
  • Cristalina (GO)
  • São Sebastião (SP)
  • Alfenas (MG)
  • Parobé (RS)
  • Itabira (MG)
  • Gurupi (TO)

Ao que parece, há apenas uma praça no Brasil com o nome do fundador da Academia Brasileira de Letras . Fica em Recife (PE), no bairro Boa Vista.

Um fato interessante é sobre a cidade de Luiziânia, em Goiás, que concentra, talvez, uma verdadeira Academia Brasileira de Letras em suas ruas. Transversais, esquinas, paralelas há diversas ruas com nome de escritores como Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Rubem Braga, Cecilia Meireles, Santiago Dantas, Humberto de Campos, Afonso Arinos, Augusto dos Anjos, Euclides da Cunha, Castro Alves, José de Alencar, Olavo Bilac, Gregório de Matos, Raquel de Queiroz entre outros. De quebra ainda tem, nas proximidades, a Rua Ataulfo Alves, o compositor de Amélia. Confira no mapa e encontre as ruas.

Dizem que o Brasil é um país sem memória e que não presta homenagens a seus heróis e vultos importantes da nossa cultura. Acredito que não seja bem por aí o problema. Uma das formas de tornar pessoas já mortas, um pouco mais conhecidas pelas gerações posteriores é nomear uma rua em homenagem a essa pessoa. Cabe apenas aos prefeitos, como se faz em algumas aqui do Rio de Janeiro, colocar alguns dados biográficos na placa. De repente, vale até um passeio por algumas ruas para conhecer os seus "patronos".

Veja os posts:

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Quadrinhos em sala de aula. Uma ideia legal!

O Ministério da Educação (MEC), a cada ano indica mais histórias em quadrinhos para a bibliografia didática e paradidática para alunos das séries fundamental e média do ensino.

Há muito tempo, quando eu gostava muito mais de dar aulas do que hoje, fiz bastante uso de histórias em quadrinhos em sala de aula. Foi quase uma descoberta, pois nem sempre os professores utilizavam e poucos quadrinhos poderiam ser adaptados, ou utilizados em aulas de história.

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Uderzo criando uma história do Asterix © Pierre Vauthey/CORBIS SYGMA
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Não se pode negar que havia versões de Os Lusíadas neste formato. Porém, ao mesmo tempo, como eu aproveitava apenas a parte histórica do poema épico do Camões, eu tentava, através das histórias do Príncipe Valente e do Asterix, por exemplo, explicar a Idade Média e também o Império Romano. E não deixava  de manter a forma lúdica tal qual estava nas páginas dos geniais Goscini e Uderzo. Tempos depois fui conferir as versões cinematográficas. Confesso que não gostei. Entretanto, os desenhos animados não ficam nada a dever ao quadrinho original do herói gaulês. Uma das mais bacanas histórias em quadrinhos que já encontrei é adaptação feita pelo Wellington Marx, dos personagens do nosso folclore, Os Lendários, sem esquecer da Turma do Pererê, do Ziraldo.

Hoje, leio num informativo educacional, que o MEC (Ministério da Educação) vem gradativamente apoiando projetos de aquisição deste tipo de literatura para ser levada à sala de aula. Louvável e muito importante esta visão, que promoverá a difusão da cultura e do conhecimento para as séries fundamentais e médias do ensino. Já se contam várias adaptações de obras literárias como o Alienista, de Machado de Assis, que até recebeu o Prêmio Jabuti.

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"Los Ultimos Dias del Graf Spee" (Last Days of the Graf Spee) © Ivan Franco/epa/Corbis
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Segundo o informativo, os quadrinhos já representam 4,2% dos 540 livros didáticos indicados. Ou seja, cerca de 16 livros/histórias em quadrinhos estarão nas mãos dos alunos. Não se pode esquecer também que, além do caráter lúdico, as graphic novels, constituem uma excelente forma de chamamento para a leitura. Sabemos que nem todos vão enveredar pelo caminho da leitura, mas aqueles que o fizerem, certamente serão leitores habituais de qualquer tipo de publicação. Eu próprio me divertia e aprendia lendo Pato Donald, Zé Carioca, Turma da Mônica. Lembre-se que a linguagem do quadrinho nos ensina a escrever corretamente. Eu só achava engraçadas as traduções de alguns quadrinhos. Dava vontade de rir ao ler o Hulk ou o Thor usando próclises, mesóclises e ênclises em profusão. Uma das frases que não esqueci era “Pega-lo-ei”, que algum desses heróis de histórias em quadrinhos dizia quando se encontrava com o seu arquiinimigo. Não está errado, mas convenhamos que é um pouco demais também, não?

A matéria ainda traz duas visões bastante interessantes sobre o uso dos quadrinhos em sala de aula – indicação como bibliografia.

O diretor de Políticas de Formação, Materiais Didáticos e de Tecnologias para Educação Básica do MEC, Marcelo Soares, diz que as HQs são "estratégicas para desenvolver o prazer e o gosto pela leitura". Mas Waldomiro Vergueiro, coordenador do Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, não gosta da premissa de que as HQs seriam um caminho para a literatura. "Podem até levar, mas essa visão instrumental é equivocada. Continua sendo preconceituosa", afirma.

Várias obras literárias foram adaptadas e gradativamente serão incorporadas outras histórias não necessariamente adaptações de livros à bibliografia didática e/ou paradidática.

Inicialmente, a maioria das HQs escolhidas pelo governo tinha forte ligação com a literatura, e isso aos poucos diminuiu, diz o pesquisador. Mas o número de adaptações ainda é grande. Além de O Alienista, há versões para Moby Dick, de Herman Melville, Oliver Twist, de Charles Dickens, O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e Irmãos Pretos, da alemã Lisa Tetzner. Outro álbum, Domínio Público: Literatura em Quadrinhos, traz obras de seis autores nacionais (Machado de Assis, Olavo Bilac, Lima Barreto, Augusto dos Anjos, Alcântara Machado e Medeiros de Albuquerque).

Então, mais do que nunca os gibis devem ser considerados a apresentados como material didático também. A produção nacional nunca ficou a dever.

Leia os artigos:

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