Recanto das Palavras

Folclore da comida ou tudo acaba em pizza

Brasília S. fem. Capital do Brasil –  Às vezes mais parece uma tratoria. Tudo acaba em pizza.

Nós nunca paramos para pensar sobre o que aquilo que comemos tem a ver com alguns ditos populares e particularmente com o nosso folclore. Vejamos, abaixo, um belo exemplo de como a comida está presente no nosso cotidiano, não apenas para nos alimentar, mas para demonstrar, insinuar, classificar e nomear fatos e pessoas. A letra é da música Linha de Passe, da dupla Bosco & Blanc.

Toca de tatu/Linguiça, paio e boi zebu/Rabada com angu/Rabo de saia/Naco de peru/Lombo de porco com tutu/E bolo de fubá/Barriga d’água (…) Um caldo de feijão/Um vatapá e coração/Boca de siri/Um namorado e mexilhão (…)/ E o meu pirão, cadê?/Não tem!/Vai pão com pão(…)/Meu pirão primeiro/É muita marmelada.

Agora que você leu e fez mentalmente as referências aos alimentos citados na letra, veja e ouça a interpretação da música na íntegra, com João Bosco e Yamandu Costa.

Não se espante. A genial dupla também já compôs ou citou alimentos em várias de suas composições como, por exemplo, Siri recheado, fritada e o cacete; Bandalhismo; Rancho da goiabada; Entre o torresmo e a moela, entre outras mais de seu vasto repertório.

A tradição de fazer dos alimentos e suas qualidades – ou não – parte de nosso linguajar cotidiano, segundo Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, remonta aos tempos coloniais e é observado em todos os quadrantes da Terra Brasilis. Por sinal, as alusões são saborosíssimas. Certamente você lembrará algumas além das que citarei aqui. Peço licença ao nosso folclorista-mor por algumas adaptações feitas por mim. Vamos saborear?

  • Abacaxi  (Descascar um abacaxi) – Resolver habilmente a situação.
  • Água (A defesa do Botafogo é uma água) – Qualquer perna de pau consegue fazer gol passando por esta defesa; (Água morna) – Quando a pessoa é apática ou neutra.
  • Angu (Angu de caroço) – Situação complicada.
  • Arroz (Arroz doce) – Comum, banal. Aqui cabe uma notinha: Há alguns anos, o fundista brasileiro (800 metros) Zequinha Barbosa, numa das eliminatórias para um final olímpica, deu a seguinte declaração que é uma pérola, ao ser perguntado sobre como seria a prova: "Tá pensando que beiço de jegue é arroz doce?". Sinceramente, nem o repórter entendeu o que ele quis dizer.
  • Bala (Ponto de bala) – Apesar de parecer que se refere ao local onde uma bala perdida pode ser encontrada, a razão da expressão é que a calda de açúcar está em um estado intermediário entre o sólido e o pastoso, que após resfriado pode ser vendido como guloseima.
  • Banana – A primeira alusão é ao sujeito que é covarde ou tolo. Porém, há também o registro de um sinal obsceno (deu uma banana), quando se coloca o punho de uma das mãos na junção do outro braço, erguendo-o para adversários, plateia, desafetos ou sogras. É um traço cultural que herdamos dos europeus latinos, que pode ser considerado o aumentativo do sinal de origem norte-americano que consiste em esticar o dedo médio, muito em voga hoje em dia devido a influência cultural vinda de Roliúdi.
  • Batata (É batata) – É certo. Vai dar certo. Justo. Eficiente.
  • Biscoitar/Abiscoitar – Fácil de conduzir ou surrupiar. Também significa prêmio: Fulano abiscoitou um milhão.
  • Bofe – Segundo o registro do Câmara Cascudo, significa mulher feia ou velha. Mas, em fins do século XX, a palavra passou a significar objeto de desejo dos rapazes alegres, que apontam o dedinho indicador e proferem a seguinte frase: Ai! Aquele bofe é lindooooooooooo!
  • Bucho – Ainda segundo o folclorista, o significado seria o mesmo do verbete acima e acho que hoje ainda mantém este sentido de mulher feia ou velha. Bem, pode ser que os mesmos rapazes alegres também se refiram aos bofes como buchos, quando se depararem com um bofe h-o-r-r-o-r-o-s-o.
  • Café (café-pequeno) – No dicionário está registrado como sendo coisa fácil de se fazer. Porém, há uma outra conotação significando que algo ou alguém e menor que um fato ou uma outra pessoa.
  • Canja (Essa foi canja) – Fácil de obter.
  • Comer (Algo, alguma coisa ou alguém) – Os significados vão desde o "comer poeira" ou ficar para trás ao "sabe quem eu estou comendo?", ou manter intercurso sexual pouquinha coisa além do que o Bill Clinton fazia com a Monica Lewinski.
  • Filé (Aquela ali é um filé) – Muito antes das mulheres com alcunhas gastronômicas, Filé significava moça nova e atraente.
  • Galinha (Galinha morta) – O sujeito é covarde. Galinha, quando se refere às mulheres tem o sentido de vadia. Quando aplicado aos homens tem o sentido de mulherengo.
  • Marmelada (Foi marmelada!) – Significa que houve algum negócio escuso para o qual não fomos convidados e o time ou escola de samba que não são de nossa preferência acabaram ganhando o campeonato.
  • Melancia (Mulher melancia) – Seios volumosos, mas no caso da moça que dançava o funk do créu, a melancia é a derrière. No dicionário há o registro como mulher gordalhona, pesada ou lenta. Uma pena que o Câmara Cascudo morreu antes de ver a Mulher Melancia dançando o créu na velocidade 5.
  • Pamonha (Pamonha… Pamonha fresquinha…Olha a pamonha) – Significa um sujeito sem iniciativa, exceto pelo #$%&*# do locutor da Variant velha caindo aos pedaços e que usa megafones para anunciar que vende o alimento feito a base de milho.
  • Pão (Pão-pão, queijo-queijo) – Provém do farnel (cesto de lanche) suficiente para a jornada de trabalho em Portugal, em tempos passados: Queijo e pão é refeição!. Coisa lógica, racional.
  • Peixe/Peixinho (E aí peixe?) – Apadrinhado de alguém.
  • Pirão (Farinha pouca meu pirão primeiro) – Se algo não será suficiente para todos, é melhor reservar logo a sua parte.
  • Siri (Boca de siri) – Ficar calado, guardar segredo.
  • Tomate (Ai! Meus tomates!) – Alguém recebeu um chute ou bolada nos testículos.
  • Uva (Aquela menina é uma uva) – Moça bonita.
  • Vinagre (Foi pro vinagre) – Algo não deu certo.

Quanto ao ato de comer e aquilo que o cerca há posturas e superstições, como as que são citadas por nosso folclorista-mor. A principal remonta à antiguidade e tem relação entre o número de participantes e uma mesa. Não se deve, jamais, ter 13 pessoas sentadas à mesa. Segundo ele, o número 13 já era visto de forma enviesada pelos romanos. Pesquisadores da história antiga, em Roma não há registro de qualquer documento que seja datado de qualquer dia 13. E como todos os cristãos sabem havia 13 pessoas participando da Santa Ceia.

Algumas superstições soam até anacrônicas nos dias de hoje como donzela não serve sal, não corta galinha e nem passa palitos e donzela não deve ficar na cabeceira da mesa senão não casa. Ainda no campo feminino, Mulher não deve beber vinho antes do homem.

Quando éramos pequenos, meu pai exigia que sempre sentássemos à mesa, não importando onde e quando, vestindo camisa. Ele dizia que não se come sem camisa, pois é falta de educação. Essa afirmação, além de uma prova de boa educação dos pais, ainda está ligada a conceitos supersticiosos: Comer despido é ofender o Anjo da Guarda. Mas antes de tudo isso é uma questão de higiene.

Bom apetite. :)

Leia também os artigos:

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Palavras de amor lembradas daqui a 400 anos

Indique poemas, músicas e cenas de filme que falem de amor e que serão lembradas nos próximos 400 anos.

amor Você, pelo menos uma vez na vida, declamou, copiou e enviou, ou mesmo escreveu um poema de amor para alguém. Ao mesmo tempo, também pelo menos uma vez na vida, indicou ou representou o amor que sentia por alguém usando uma música. Que tal, então, indicar como sendo “As palavras de amor que serão lembradas daqui a 400 anos? Para isso, basta escrever a letra de música ou a poesia nos comentários ao final deste artigo.

Que o poder das palavras de amor seja, preferencialmente, escrito em Língua Portuguesa. Traduções são também recomendadas. Devem ser indicadas poesias, músicas e até mesmo cenas de filme (com legenda) que falem de e do amor.

Foi feita uma pesquisa nos EUA, pela NPR (National Public Radio), motivada pela eternidade das palavras de Shakespeare, que até hoje é encenado e seus poemas, que parecem ser declamados a cada segundo, sobre quais as poesias e músicas da atualidade seriam eternizadas durante os próximos 400 anos. Isto é, o que as pessoas do século 25 declamarão e quais músicas cantarão para as suas almas gêmeas.

Lá nos EUA, em termos de poesia, foram escolhidas obras como o “Soneto 20”, de Pablo Neruda e Quando Fores Velha (When You Are Old), de W.B. Yeats. Veja um vídeo com a tradução deste poema no Youtube.

No campo musical, Bob Dylan foi teve algumas de suas músicas indicadas. Além dessas, In My Life, dos Beatles também foi bastante indicada. Eu mesmo, bem antes de tomar conhecimento dessa pesquisa, já escrevera algo sobre essa música, no artigo intitulado Em minha vida. Por toda minha vida.

Como poesia, eu indico Aparição Amorosa, de Carlos Drummond de Andrade.

E música, eu indico Travessia, do Milton Nascimento.

Travessia

Milton Nascimento

Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha, e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho prá falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedras, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar

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John Donne – Elegia

Ser católico na Inglaterra dos séculos XVI e XVII não era algo lá muito recomendável. Henrique VIII, um rei meio estranho e que teve como um dos esportes preferidos trocar de esposas, numa destas trocas de coadjuvante na cama encrencou com o Papa só porque este não quis lhe conceder o direito de se divorciar. Sendo assim, resolveu fundar a sua própria igreja, onde ele seria o chefe da mesma. Surgiu, então, a Igreja Anglicana. O que se seguiu foi um misto de desconfiança e perseguição. Tudo bem, tudo bem… Sempre haverá perseguições religiosas. Basta apenas que um determinado grupo religioso se instaure no poder.

Como a época era de Reformas Religosas que pipocavam por toda Europa, como dito acima, era necessário muito jogo de cintura para não perder a cabeça ou virar churrasco. E foi neste meio que surgiu um dos maiores poetas que já pisaram neste mundo de Deus. Trata-se de John Donne.

John Donne

Nascido no seio de uma família católica nesta época, mas que desde cedo teve que se virar sem o pai, que morreu durante sua infância, foi educado em uma escola jesuítica. Posteriormente estudou em Harvard e Cambridge. Teve um irmão morto na prisão, pois acolhera um padre condenado em sua casa. Questionou sua fé por conta disto. Foi um, digamos, boêmio que gastou a herança deixada pelos pais esbanjando dinheiro em farras, mulheres e viagens.

Casou-se com a sobrinha de seu patrão, que estava com 17 anos e isto foi a sua derrocada. Casou secretamente e foi preso! Tempos depois seu casamento foi reconhecido e tiveram 20 filhos, sendo que sua esposa morreu no parto deste vigésimo filho.

Incompreendido em sua própria época e esquecido por quase trezentos anos, John Donne ressurge como uma voz do nosso tempo, com angústias existenciais que pouco diferem das que afligem o homem contemporâneo, e com técnicas audaciosas, em grande parte incorporadas à poesia moderna.

Ao transfomar emoções religiosas numa poesia metafísica de rara beleza e profundidade, Donne seduz, comove – e faz pensar. Autores como T.S. Eliot jamais negaram a influência desse extraordinário contemporâneo de Shakespeare. Ernest Hemingway foi buscar na sua prosa o título para o romance Por Quem os Sinos Dobram.

Aqui no Brasil, Augusto de Campos traduziu o poema Elegia XIX: Indo para a Cama, que teve colocada uma belíssima melodia por Péricles Cavalcanti e gravada por Caetano Veloso no LP Cinema Transcedental. O texto foi reduzido, é claro, para caber no tempo de uma canção. Infelizmente, houve uma terrível gravação feita por uma antiga jogadora de basquete que acha que é cantora. Também apresento o poema A Pulga, no qual ele, John Donne, pede desesperadamente para fazer amor com uma dama. É interessantíssimo ver como ele faz de uma simples pulga o mote para dizer a ela, dama, que a quer.

Abaixo estão as duas versões de Elegia:

Elegia (Augusto de Campos, Péricles Cavalcanti) *a música está na coluna ao lado em slides. Clique para baixar e ouvir em seu computador

Deixa que minha mão errante adentre
Em cima, em baixo, entre
Minha América, minha terra à vista
Reino de paz se um homem só a conquista
Minha mina preciosa, meu império
Feliz de quem penetre o teu mistério
Liberto-me ficando teu escravo
Onde cai minha mão, meu selo gravo
Nudez total: todo prazer provém do corpo
(Como a alma sem corpo) sem vestes
Como encadernação vistosa
Feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns a que tal graça se consente
É dado lê-la
Eu sou um, quem sabe…


Elegia XIX: Indo para a Cama

Vem, oh senhora, vem, que ócios não me permito;
Fico agitado toda vez que não me agito.
Quando o inimigo ao inimigo espreita e escuta,
Mais se cansa da espera que da própria luta.
Tira este cinto, cintilante anel celeste,
Que em torno a um mundo mais formoso dispuseste.
Desprende logo o peitoral onde lusis,
Que barra os olhos dos xeretas imbecis.
Despe-te, pois o carrilhão sonoro chama,
Dizendo a mim que a hora chegou de ir para a cama.
Abre o teu espartilho, que eu invejo em tudo:
Contudo, ele te abraça; e se mantém, contudo.
Tua saia, ao cair, revela tal primor,
Que é igual à sombra a se afastar do campo em flor.
Fora a coroa entrelaçada de metal;
Solta os cabelos, diadema natural.
Tira os sapatos, e, sem medo, ora te avia
Ao sacrário do amor, à cama tão macia.
Com essas vestes cândidas, do céu amigo
Os anjos vinham. Anjo meu, trazes contigo
Um paraíso igual ao de Maomé; e embora
Haja espíritos maus também de branco, agora
Sabe-se bem qual anjo é mau, e o bom qual é:
Um deixa em pé os cabelos, o outro a carne em pé.

Concede uma licença à minha mão errante,
Para ir ao meio, encima, embaixo, atrás, adiante.
Oh, minha América! Oh, meu novo continente,
Meu reino, a salvo porque um homem tens à frente.
Tenho aqui minhas minas, meu império aqui;
Que abençoado sou por descobrir a ti!
Este acordo liberta a quem ele segura;
Onde coloco a mão, eu deixo a assinatura.

Nudez completa, da alegria o cerne e a polpa!
Como a alma sai do corpo, o corpo sai da roupa
Para o prazer total. A jóia da mulher
E maçã de Atalanta, que sua dona quer
Lançar aos tolos, a que, vendo a gema bela,
Pensem sequiosos no que é dela, e não mais nela.
Como pintura, ou capa de volume, feita
Visando aos leigos, a mulher também se enfeita;
Mas é obra mística, e seu tema se explicita
Somente àqueles a que a graça nobilita,
Como nós. Sendo assim, que eu te conheça inteira;
Sem pejo vem, e, como diante da parteira,
Mostra-te a mim. Atira longe a vestimenta:
Para a inocência punição não se apresenta.

Que esperas? Estou nu. . . e as horas se consomem.
Mais cobertura tu desejas do que um homem?

A PULGA

Nota esta pulga, e nota, através dela,
Que o que me negas é uma bagatela;
Tendo sugado a mim, e a ti depois,
Nela se mescla o sangue de nós dois;
Sabes que isso não pode ser chamado
Defloração, vergonha, nem pecado;
Ela, no entanto, rude e ousada,
De sangue duplo se deforma empanturrada,
E, perto disso, o que desejo, ai! não é nada.
Pára! Três vidas poupa este momento,
Onde houve quase… oh, mais que um casamento.
Somos a pulga, e a nós ela é perfeito
Templo de núpcias e de núpcias leito;
Contra ti e teus pais, a união se deu
Nesse claustro murado em vivo breu.
Matando-me pela honradez,
Praticarás o suicídio a uma só vez,
E o sacrilégio,
três pecados pelos três.
De púrpura manchaste, sem demência,
As unhas com o sangue da inocência?
Essa pulga seria tão daninha,
Só por te haver sugado uma gotinha?
Porém, exultas porque após tal morte
Nenhum de nós se mostra menos forte.
Bem, vê como o temor é ruim;
Perderás tanto de honra ao vires para mim.
Quanto de vida porque a pulga teve fim.

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