Recanto das Palavras

Três meninas paulistanas e Sampa

Rodoviária de São Paulo, manhã de quarta-feira por volta das 8h30min. Após a viagem confortável em um ônibus leito (super-hiper-ultra); me aboleto num banco da parte de cima da rodoviária e começo a ler a Folha de S. Paulo – em Roma faça como os romanos –, em busca de notícias sobre o apagão que quase me fez prisioneiro no elevador do prédio em que moro, e deixou às escuras vários estados, o Distrito Federal e parte dos territórios do Paraguai e Argentina; que dividem conosco a energia elétrica produzida por Itaipu.

Um pouco antes de vir para o segundo andar da rodoviária, permaneci sentado num dos bancos da parte debaixo e acabei dando cochilos do tipo "mergulho", que é aquele em que sua cabeça afunda no vazio do ar logo abaixo do seu nariz e, sei lá por qual motivo, o corpo nos avisa que há algo errado – o ouvido interno diz: "cérebro, we have a problem" –, e você, como se voltasse das profundezas do mar sem equipamentos, acorda como se estivesse próximo de seus pulmões acenderem o alerta “FALTA DE AR! FALTA DE AR!”. É constrangedor perceber os olhares de seus vizinhos de banco e também dos transeuntes. A sorte é que não dá tempo de produzir aquela babinha, essa mesma que todo mundo deixa na fronha – alguns preferem morder fronha. Aí é questão de gosto e eu não vou discutir, mas apenas lamentar.

Então, resolvi subir. Na parte de cima têm mais lojas e movimento. Acredito, assim, que não dormirei até que um amigo venha me buscar para irmos a USP. Durante a leitura do jornal observo as pessoas à minha volta. Há uma mistura de cores e etnias. Sampa é realmente a maior cidade japonesa fora do Japão. A quantidade de japoneses, nisseis, sanseis e nãoseis é enorme. Resultado de uma saudável mistura entre negros, asiáticos e europeus. Isso me fez despertar a atenção para três meninas, ali por volta dos 20 anos, que estavam sentadas num ponto diagonal, à esquerda, do meu campo de visão. Não estavam longe e era possível perceber suas feições e movimentos. Duas eram de ascendência europeia e uma era claramente de ascendência do grupo “sei”. Estavam com valises do tipo nécessaire sobre seus joelhos e freneticamente passavam pós e sei lá mais o quê para realçar a estética, apesar de uma delas ter o cabelo com uma mistura de preto com rosa cheguei.

Abriam as valises, trocavam objetos entre si e era um tal de pincel espalhando coisas no rosto, lápis contornando os olhos, brilhos para os lábios; que eu pensei: deve ser marketing. Não, não poderia ser, pois, no meu campo de visão estavam uma gringa com uma mochila do tamanho do Himalaia, cujos cabelos estavam, digamos, acumulando os ventos vindos de todos os pontos cardeais pelos quais ela transitou em seu périplo. Esse tipo de gringo é comum na Lapa. Chegam com a cara rosada e com mochilas imensas. Essa não era muito diferente. Alguns bancos à frente, à direita, um casal de idosos também lia um jornal assim como eu. Ao meu lado, cerca de 4 bancos à esquerda, um homem vestido em andrajos dormia seu sono descalço.

Continuei observando. Elas pouco falavam e misturavam os “ingredientes”. Olhavam-se em espelhos. Não satisfeitas, repetiam ou experimentavam novas “fórmulas”. Isso durou uns dez ou quinze minutos. Eu as observava e lia meu jornal. Até que começaram a guardar os objetos e fechar as valises. Elas não transportavam malas. Sinal que a viagem seria curta. Ao se levantarem, pude perceber que as alturas eram variáveis também, sendo as de ascendência europeia bem maiores que a “sei”. E, lá do fundo da memória vieram os versos de Sampa, aquela canção do Caetano Veloso que enaltece a terra da garoa. Após cantar mentalmente “Alguma coisa acontece no meu coração”, veio o verso “…da deselegância discreta de suas meninas” e “O avesso do avesso do avesso”. Por incrível que pareça, elas combinavam com o concretismo da cidade.

Arquivado como:Artigos, Aventura, Comportamento, Cotidiano, Crônicas, Moda, Opinião, Viagens, mulher

Um pouco de barroco no Rio de Janeiro

Por vezes nós nem prestamos atenção ao que temos ao nosso redor em termos de arte e conhecimento; isso para não falar de cultura sendo apresentada, ou melhor, que está ali ao alcance de alguns passos e nem nos damos conta de sua importância.

Terça-feira, após o almoço, resolvi voltar a explorar as cercanias da Lapa, que como todos sabem é o bairro boêmio do Rio de Janeiro. Mesmo que esteja em andamento um processo de revitalização desse pedaço da cidade, o ar de decadência com elegância ainda é o mais percebido. Este ar não é no sentido pejorativo. É um certo charme, eu diria. Pois bem, decidi entrar na igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro para ver o seu interior.

Veja o vídeo e ouça a música

Eu já sabia que a construção tem como estilo o barroco, que tanto marcou o século XVIII, muito mais na região das Minas Gerais, mas que aqui no Rio também é percebido, bastando apenas apurar a visão e procurar nos lugares certos. Ao entrar constatei que é realmente uma bela construção e que foi feita com todo esmero dos artistas e arquitetos da época. O que eu não imaginava é que ouviria música sacra – barroca – vinda de um órgão como aqueles que, imagino, Johann Sebastian Bach utilizava para criar suas músicas.

Timidamente perguntei a uma pessoa que estava próxima e que pertencia a administração da igreja, se era possível fotografar. Me surpreendi com a resposta positiva, pois como fui assíduo visitante de Ouro Preto e demais cidades do ciclo do ouro, sabia que era proibido fotografar e até mesmo filmar o interior das igrejas. A luz do flash das câmeras danifica o acabamento das pinturas e demais filigranas que compõem a decoração. Lendo a descrição sobre a história da igreja foi possível saber que uma parte dessa construção foi obra do Mestre Valentim.

Arquivado como:Arte, Artigos, Aventura, Comportamento, Cotidiano, Crônicas, Cultura, História, Lapa, Música, Rio de Janeiro, Vídeo

Educação vem mesmo do berço

E quanto a isso não podemos negar que são os pais os responsáveis pela educação que nos formou e formará para o resto de nossas vidas. Por qual motivo digo isso? Simples: hoje, à noite, um garoto de uns seis anos que tomou o ônibus com sua mãe, que estava com uma menina de meses no colo, teve um lugar cedido para que pudesse se sentar.

IMAGEM: © Owen Franken/CORBIS

IMAGEM: © Owen Franken/CORBIS

Ele, o menino, carregava o carrinho de bebê – de sua irmã – dobrado, de modo que ficasse do tamanho exato para ser transportado sem problema.

O menino, que descobri se chamar Gabriel, me pareceu bastante esperto. Tanto ele quanto sua mãe tinham um ar humilde. Porém, a nobreza do gesto não está no que aparentamos, mas no que somos o que trazemos no coração e na alma.

Tão logo a mãe se sentou, tendo ao colo a criança a mastigar algo que parecia um pedaço de doce, babando-se toda mas feliz da vida, o garoto teve sua atenção chamada por um rapaz que disse para ele sentar no banco que estava vazio. Todos nós estávamos no fundo do ônibus que não estava lotado, mas os lugares vagos eram poucos. O garoto disse que não sentaria, pois iria pagar a passagem com a seguinte frase: “Vou lá na frente dar o dinheiro para a trocadora”. E seguiu se esquivando entre as pessoas que estavam de pé. Ninguém se sentou no banco que estava vago.

Ao voltar, novamente foi convidado a sentar e recusou: “Criança é pra ficar em pé”, disse o menino. As pessoas, que já prestaram atenção a ele quando disse que pagaria a passagem, olharam quase ao mesmo tempo para ele. A mãe disse para se sentar: Ele recusou com uma certa veemência, mas mesmo assim obedeceu sua mãe. O rapaz que o convidara a sentar, ainda disse: “Pode sentar o lugar está vago e não tem essa de criança não pode sentar. Se está vazio você pode sentar”.

O mais interessante é que a cada pessoa que se aproximava e, logicamente, não sabia o que acontecera um pouco antes, ele dizia: “Quer sentar?”. As pessoas que presenciaram e presenciavam esperavam para ver a reação do adulto que estava de pé. Todos agradeciam e o faziam com um sorriso. Parecia, então, que as outras pessoas, mesmo sem dizer uma palavra sequer, admiravam a atitude do Gabriel. Certamente, pensavam o mesmo que eu: educação vem de berço.

Quando estava chegando perto do ponto em que desceriam, o menino arrematou: “Moça, pode sentar que a gente já vai descer”.

Tenho certeza que todos desejaram bater palmas para o guri. Não o fizemos. Entretanto, todos que estavam naquela parte do ônibus, guardaram em suas memórias a atitude desse menino, o Gabriel. Devemos, sim, dar parabéns à sua mãe por ensinar-lhe a ser educado.

Arquivado como:Comportamento, Cotidiano, Crônicas, Educação, Opinião, Rio de Janeiro, Sociedade, Vida

O que você anda pendurando nas paredes?

Uma das grandes dificuldades estéticas de se manter uma casa de um jeito bacana é saber o que vamos pendurar nas paredes dos diversos cômodos. Somos seres estéticos e isso é algo que nos molda desde as cavernas, vide as grutas de Lascaux (França) e Altamira (Espanha).

Agora, como é que nós vamos ornar e conferir prazer visual a nós mesmos e aos nossos visitantes se não sabemos o que pendurar nas paredes? Eu, por exemplo, já vi um pôster do Che Guevara na parede em que se encostava o espaldar da cama. Ele ficava ali, justamente, no lugar em que geralmente se colocava o símbolo que representa aquele rapaz judeu que foi parar na cruz dos romanos. Bom, como eram um professor de história e uma professora de artes, esse casal de amigos rezava pela cartilha do materialismo dialético. Logo, símbolos religiosos não pegavam bem. Tudo é uma questão de gosto e estética e cada um tem o seu.

Eu estou relendo um livro sobre a Hollywood dos anos 1930 e 1940 (City of Nets – A portrait of Hollywood in the 1940´s), que, segundo o autor, Otto Friedrich, foi o período áureo da indústria do cinema norte-americano e que, certamente, não volta mais. Nesse livro são analisados e apresentados vários fatos e também todos – ou quase todos – os personagens  importantes que transitaram por ruas, sets de filmagem e estúdios nesse período. Um dos filmes retratados é Casablanca, um dos maiores clássicos da sétima arte. São contadas algumas curiosidades como as recusas do papel principal, até chegar às mãos de Humphrey Bogart, por exemplo.

12102009

Uma das coisas boas da internet é que ela nos permite ler um livro procurando imagens de pessoas e lugares citados em seus parágrafos. Portanto, aqui, diante da tela do computador eu fui rever as informações sobre esse filme no IMDb (Internet Movie Database), um referencial para qualquer um que goste de saber sobre o cinema e tudo mais que o envolve. Assim, vendo as fotos da filmagens, lá estavam dezenas de reproduções dos pôsteres do lançamento do filme, em 1942. E o mais legal é que aqui ao meu lado, pendurado na parede (imagem acima), está um desses pôsteres. Ainda me deliciando com o que estava vendo, decidi procurar uma imagem para fundo de tela aqui do meu computador. Me deparei com uma loja online de pôsteres e qual não foi a minha surpresa? Há pôster de tudo que é filme que você possa imaginar e a loja até ajuda você a escolher o melhor lugar para pendurar esse ou aquele pôster. Abre uma janela que apresenta alguns ambientes que podem ser assemelhados aos de sua casa e lá colocam a imagem.

E como todos nós temos uma coisa chamada bicho carpinteiro a nos instigar as idéias, ao ir até a cozinha buscar café, logo após ter começado a escrever o artigo, observei a parede da sala. E não é que, desligado que sou, me dei conta que há diversos quadros pendurados; com reproduções de papiros, um autorretrato da Frida Kahlo, uma miniatura da Pedra do Sol, uma réplica de uma faca cerimonial Inca e alguns quadros menores.

Então, voltamos ao primeiro parágrafo, quando se fala do senso estético entre nós. Para alguns, ter este tipo de representação iconográfica pode não ser interessante. Para outros, certamente é. Portanto, o que penduramos nas paredes representa muito mais o que pensamos a respeito de nós mesmos e do mundo que nos cerca e exprime um tanto de nossas personalidades.

Uma curiosidade: o que você anda pendurando e pintando nas paredes de sua “caverna”?

Arquivado como:Arte, Artigos, Cinema, Comportamento, Cotidiano, Crônicas, Ilustração, Opinião, Sociedade

O inferno dentro dos ônibus

Por que certos passageiros cismam em ouvir música ruim sem fones de ouvido?

Descobri o inferno dentro dos ônibus urbanos do Rio de Janeiro e nem estou fazendo referência aos já sabidos e meganoticiados assaltos, motoristas que podem ser considerados verdadeiros kamikazes, buracos no asfalto… Tudo isso aí a gente tira de letra.

AW011292

© Adam Woolfitt/CORBIS

Mas o que incomoda mesmo são as caixas de abelha que alguns passageiros resolvem carregar consigo. Ah, sim, não sabe o que é caixa de abelha? Pegue um telefone celular que toca mp3, não regule graves e exerça todo o poder dos agudos. Coloque no maior volume possível. Feito isto, a distorção dos agudos logo será percebida e seus ouvidos, que não precisam ter conhecido Bach, Bethoven, Mozart, Beatles, Tom Jobim, Paul Desmond e tudo de bom que há em termos de música, estão prontos para ouvir um zumbido que parece um enxame acondicionado em uma caixa diminuta. É o inferno em termos de música!

Por qual motivo é um inferno musical? Os passageiros, que não tem um pingo de educação e semancol resolvem que todos nós, infelizes passageiros dessa, agora, bad trip, seremos obrigados a ouvir as desgraças de pagodeiros que levaram o pé na bunda da amada e cantam (?) suas mazelas. Isso para não falar dos inapropriados “proibidões”. Um tipo de funk de 5ª categoria em que, imagino, estejam expressando alguma coisa em uma suposta língua assemelhada a última flor do Lácio que, no caso específico, é muito mais inculta e horrorosa!

Esta praga vem se alastrando mais que a tal gripe suína. Torna-se mais comum que derrotas do Botafogo para qualquer timeco de garçons que jogam no Aterro e, pior ainda, são tão ruins quanto o time de Fluminense. Os tais passageiros acham que estão prestando um bem ao nos apresentar essas porcarias. Isto só faz bem para o seu ego que é desproporcional em relação aos dos outros passageiros e suas (deles) mentalidades é comparável a de qualquer ameba que se preze. Como todos nós sabemos, ameba é um protozoário, mas, pelo menos, exerce uma função na Natureza, mesmo tendo apenas uma célula. Esses infelizes, ao que parece, não tem um neurônio sequer.

Me dei ao trabalho de procurar aquele aviso de uma tal lei que proíbe o uso de aparelhos sonoros no interior dos veículos de transporte de massa como os ônibus urbanos. Ou eu estou ficando cego, ou esse aviso não existe mais. Temo que a lei tenha caído no esquecimento.

Dá vontade de fazer como fui obrigado a fazer, ao ter minhas manhãs de Domingo invadidas pelos berros, urros e desacordes de uma rádio evangélica que uma vizinha passou a ouvir. Não me dei por vencido. Quis manter o meu direito ao silêncio nas manhãs domingueiras e deixar minhas janelas abertas, pois, como sabemos, o verão no Rio de Janeiro, por vezes, é uma verdadeira canícula senegalesca. Peguei minha guitarra, coloquei o amplificador no parapeito e o volume de ambos no máximo e ataquei de Johnny B. Goode, o riff inicial é inconfundível e não há inimigo do KPTA que não o conheça. Parece que a mensagem foi compreendida. O rádio da vizinha voltou ao volume normal. Não sei se pela qualidade da música ou se pela mensagem que foi passada. Só sei que deu certo.

Se, ao menos, os tais infelizes de ego gigantesco e capacidade cerebral diminuta gostassem de músicas boas, tudo bem. A gente até não reclamaria tanto, mas, por qual desígnio divino acham que somos obrigados a lidar com essas porcarias que costumam escutar?

Arquivado como:Artigos, Aventura, Citações, Comportamento, Comunicação, Cotidiano, Crônicas, Cultura, Jornalismo, Música, Opinião, Rio de Janeiro

Receba as atualizações

Posts antigos

Flickr Photos

coracaoasfalto1

27082009

28072009(004)

28072009(003)

28072009(002)

More Photos
Watch videos at Vodpod and other videos from this collection.

Blogosfera

hitcounter

Adicione

Bookmark and Share

Categorias

Agenda

Novembro 2009
S T Q Q S S D
« Out    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

del.icio.us