Recanto das Palavras

Folclore da comida ou tudo acaba em pizza

Brasília S. fem. Capital do Brasil –  Às vezes mais parece uma tratoria. Tudo acaba em pizza.

Nós nunca paramos para pensar sobre o que aquilo que comemos tem a ver com alguns ditos populares e particularmente com o nosso folclore. Vejamos, abaixo, um belo exemplo de como a comida está presente no nosso cotidiano, não apenas para nos alimentar, mas para demonstrar, insinuar, classificar e nomear fatos e pessoas. A letra é da música Linha de Passe, da dupla Bosco & Blanc.

Toca de tatu/Linguiça, paio e boi zebu/Rabada com angu/Rabo de saia/Naco de peru/Lombo de porco com tutu/E bolo de fubá/Barriga d’água (…) Um caldo de feijão/Um vatapá e coração/Boca de siri/Um namorado e mexilhão (…)/ E o meu pirão, cadê?/Não tem!/Vai pão com pão(…)/Meu pirão primeiro/É muita marmelada.

Agora que você leu e fez mentalmente as referências aos alimentos citados na letra, veja e ouça a interpretação da música na íntegra, com João Bosco e Yamandu Costa.

Não se espante. A genial dupla também já compôs ou citou alimentos em várias de suas composições como, por exemplo, Siri recheado, fritada e o cacete; Bandalhismo; Rancho da goiabada; Entre o torresmo e a moela, entre outras mais de seu vasto repertório.

A tradição de fazer dos alimentos e suas qualidades – ou não – parte de nosso linguajar cotidiano, segundo Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, remonta aos tempos coloniais e é observado em todos os quadrantes da Terra Brasilis. Por sinal, as alusões são saborosíssimas. Certamente você lembrará algumas além das que citarei aqui. Peço licença ao nosso folclorista-mor por algumas adaptações feitas por mim. Vamos saborear?

  • Abacaxi  (Descascar um abacaxi) – Resolver habilmente a situação.
  • Água (A defesa do Botafogo é uma água) – Qualquer perna de pau consegue fazer gol passando por esta defesa; (Água morna) – Quando a pessoa é apática ou neutra.
  • Angu (Angu de caroço) – Situação complicada.
  • Arroz (Arroz doce) – Comum, banal. Aqui cabe uma notinha: Há alguns anos, o fundista brasileiro (800 metros) Zequinha Barbosa, numa das eliminatórias para um final olímpica, deu a seguinte declaração que é uma pérola, ao ser perguntado sobre como seria a prova: "Tá pensando que beiço de jegue é arroz doce?". Sinceramente, nem o repórter entendeu o que ele quis dizer.
  • Bala (Ponto de bala) – Apesar de parecer que se refere ao local onde uma bala perdida pode ser encontrada, a razão da expressão é que a calda de açúcar está em um estado intermediário entre o sólido e o pastoso, que após resfriado pode ser vendido como guloseima.
  • Banana – A primeira alusão é ao sujeito que é covarde ou tolo. Porém, há também o registro de um sinal obsceno (deu uma banana), quando se coloca o punho de uma das mãos na junção do outro braço, erguendo-o para adversários, plateia, desafetos ou sogras. É um traço cultural que herdamos dos europeus latinos, que pode ser considerado o aumentativo do sinal de origem norte-americano que consiste em esticar o dedo médio, muito em voga hoje em dia devido a influência cultural vinda de Roliúdi.
  • Batata (É batata) – É certo. Vai dar certo. Justo. Eficiente.
  • Biscoitar/Abiscoitar – Fácil de conduzir ou surrupiar. Também significa prêmio: Fulano abiscoitou um milhão.
  • Bofe – Segundo o registro do Câmara Cascudo, significa mulher feia ou velha. Mas, em fins do século XX, a palavra passou a significar objeto de desejo dos rapazes alegres, que apontam o dedinho indicador e proferem a seguinte frase: Ai! Aquele bofe é lindooooooooooo!
  • Bucho – Ainda segundo o folclorista, o significado seria o mesmo do verbete acima e acho que hoje ainda mantém este sentido de mulher feia ou velha. Bem, pode ser que os mesmos rapazes alegres também se refiram aos bofes como buchos, quando se depararem com um bofe h-o-r-r-o-r-o-s-o.
  • Café (café-pequeno) – No dicionário está registrado como sendo coisa fácil de se fazer. Porém, há uma outra conotação significando que algo ou alguém e menor que um fato ou uma outra pessoa.
  • Canja (Essa foi canja) – Fácil de obter.
  • Comer (Algo, alguma coisa ou alguém) – Os significados vão desde o "comer poeira" ou ficar para trás ao "sabe quem eu estou comendo?", ou manter intercurso sexual pouquinha coisa além do que o Bill Clinton fazia com a Monica Lewinski.
  • Filé (Aquela ali é um filé) – Muito antes das mulheres com alcunhas gastronômicas, Filé significava moça nova e atraente.
  • Galinha (Galinha morta) – O sujeito é covarde. Galinha, quando se refere às mulheres tem o sentido de vadia. Quando aplicado aos homens tem o sentido de mulherengo.
  • Marmelada (Foi marmelada!) – Significa que houve algum negócio escuso para o qual não fomos convidados e o time ou escola de samba que não são de nossa preferência acabaram ganhando o campeonato.
  • Melancia (Mulher melancia) – Seios volumosos, mas no caso da moça que dançava o funk do créu, a melancia é a derrière. No dicionário há o registro como mulher gordalhona, pesada ou lenta. Uma pena que o Câmara Cascudo morreu antes de ver a Mulher Melancia dançando o créu na velocidade 5.
  • Pamonha (Pamonha… Pamonha fresquinha…Olha a pamonha) – Significa um sujeito sem iniciativa, exceto pelo #$%&*# do locutor da Variant velha caindo aos pedaços e que usa megafones para anunciar que vende o alimento feito a base de milho.
  • Pão (Pão-pão, queijo-queijo) – Provém do farnel (cesto de lanche) suficiente para a jornada de trabalho em Portugal, em tempos passados: Queijo e pão é refeição!. Coisa lógica, racional.
  • Peixe/Peixinho (E aí peixe?) – Apadrinhado de alguém.
  • Pirão (Farinha pouca meu pirão primeiro) – Se algo não será suficiente para todos, é melhor reservar logo a sua parte.
  • Siri (Boca de siri) – Ficar calado, guardar segredo.
  • Tomate (Ai! Meus tomates!) – Alguém recebeu um chute ou bolada nos testículos.
  • Uva (Aquela menina é uma uva) – Moça bonita.
  • Vinagre (Foi pro vinagre) – Algo não deu certo.

Quanto ao ato de comer e aquilo que o cerca há posturas e superstições, como as que são citadas por nosso folclorista-mor. A principal remonta à antiguidade e tem relação entre o número de participantes e uma mesa. Não se deve, jamais, ter 13 pessoas sentadas à mesa. Segundo ele, o número 13 já era visto de forma enviesada pelos romanos. Pesquisadores da história antiga, em Roma não há registro de qualquer documento que seja datado de qualquer dia 13. E como todos os cristãos sabem havia 13 pessoas participando da Santa Ceia.

Algumas superstições soam até anacrônicas nos dias de hoje como donzela não serve sal, não corta galinha e nem passa palitos e donzela não deve ficar na cabeceira da mesa senão não casa. Ainda no campo feminino, Mulher não deve beber vinho antes do homem.

Quando éramos pequenos, meu pai exigia que sempre sentássemos à mesa, não importando onde e quando, vestindo camisa. Ele dizia que não se come sem camisa, pois é falta de educação. Essa afirmação, além de uma prova de boa educação dos pais, ainda está ligada a conceitos supersticiosos: Comer despido é ofender o Anjo da Guarda. Mas antes de tudo isso é uma questão de higiene.

Bom apetite. :)

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Música ruim e a surdez cultural

Como duas músicas podem ensinar os jovens a entenderem as palavras e iniciarem um diálogo.

Percebi, ao ditar alguns temas nas primeiras aulas deste ano, para as turmas que iniciavam o 2º grau que, ou eu estava perdendo a dicção (seria um AVC em plena aula?) ou meus alunos eram surdos. Fiquei um tanto assustado com ambos fatos. Na altura de segunda semana de aulas, eu constatei que: não perdera a dicção (e não tivera um AVC… ufa!) e que meus alunos não são surdos. Na verdade, a maioria não conhece as palavras, o que é muito pior!

Passei a observar os diálogos deles, não apenas ao se dirigirem a mim, mas também, quando se dirigem uns aos outros. Infelizmente, o universo vernacular deles é limitadíssimo. Coisa do tipo:

- E, aí? Tá ligado na parada?

- Sinistro…

E termina a conversa.

Ao mesmo tempo, as músicas que ouvem – o tal estilo “proibidão” – ou funk com três ou quatro frases em que a concordância apanha mais que boi fujão e as rimas(?) que sempre terminam em “ão” ou “inho”, para poder juntar escatologia com descrição de uma cena de sexo, por sinal, de péssima qualidade literário-musical e sexual. Se nem ao menos é possível descrever uma coisa prazerosa com qualidade, imagine o uso da Língua Portuguesa no cotidiano? Disso podemos observar dois fatos gritantes, a saber: 1 – a leitura é inexistente em qualquer nível; 2 – Não ouvem frases bem construídas ou palavras que enriqueçam em qualidade e quantidade os seus diálogos e, consequentemente, a escrita.

Comecei a me policiar para não usar palavras que fujam muito desse “mundo”, sem, porém, perder a qualidade. Penso que estarei, assim, contribuindo para que enriqueçam o vocabulário.

Por qual motivo citei música e desconhecimento do vocabulário? Simples: As letras das músicas, apesar de algumas licenças poéticas, são excelentes fontes de aquisição de vocabulário e, também, uma forma de aprender a usar as palavras, construir frases, pensamentos e, enfim, comunicar uma ou várias idéias.

Imagine, portanto, uma versão atual, sendo vertida para o “vasto” universo vocabular dos nossos estudantes, para “Sinal fechado”, do Paulinho da Viola e “Amigo é pra essas coisas”, do Silvio Silva Jr. e Aldir Blanc, que são crônicas, ou diálogos musicados, em que os interlocutores falam sobre suas vidas, cotidiano e perspectivas.  Vejamos como ficariam:

- E aí?
- Sinistro…

Triste, não?

Mas, para a nossa alegria, abaixo estão as músicas com suas respectivas letras.

Amigo é para essas coisas

mpb4

Composição: Silvio Silva Júnior/Aldir Blanc

 

- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- Um ano ou mais…
- Posso sentar um pouco?
- Faça o favor
- A vida é um dilema
- Nem sempre vale a pena…
- Pô…
- O que é que há?
- Rosa acabou comigo
- Meu Deus, por quê?
- Nem Deus sabe o motivo.
- Deus é bom!
- Mas não foi bom pra mim…
- Todo amor um dia chega ao fim.
- Triste.
- É sempre assim…
- Eu desejava um trago.
- Garçom, mais dois!
- Não sei quando eu lhe pago.
- Se vê depois.
- Estou desempregado.
- Você está mais velho..
- É…
- Vida ruim…
- Você está bem disposto.
- Também sofri.
- Mas não se vê no rosto.
- Pode ser…
- Você foi mais feliz.
- Dei mais sorte com a Beatriz!
- Pois é…
- Pra frente é que se anda.
- Você se lembra dela?
- Não..
- Lhe apresentei!
- Minha memória é fogo!
- E o l´argent?
- Defendo algum no jogo.
- E amanhã?
- Que bom se eu morresse!
- Pra quê, rapaz?
- Talvez Rosa sofresse.
- Vá atrás!
- Na morte a gente esquece.
- Mas no amor agente fica em paz.
- Adeus…
- Toma mais um!
- Já amolei bastante.
- De jeito algum!
- Muito obrigado, amigo.
- Não tem de quê.
- Por você ter me ouvido.
- Amigo é prá essas coisas.
- Tá…
- Tome um cabral!
- Sua amizade basta.
- Pode faltar.
- O apreço não tem preço, eu vivo ao Deus dará.

Sinal fechado

Paulinho da Viola

Composição: Paulinho da Viola

 

- Olá, como vai ?
- Eu vou indo e você, tudo bem ?
- Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e você ?
- Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranquilo, quem sabe …
- Quanto tempo… pois é…
- Quanto tempo…
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios…
- Oh! Não tem de quê…
- Eu também só ando a cem…
- Quando é que você telefona ? Precisamos nos ver por aí.
- Pra semana, prometo talvez nos vejamos. Quem sabe ?
- Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)
- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas.
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança.
- Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa, rapidamente.
- Pra semana.
- O sinal …
- Eu espero você.
- Vai abrir…
- Por favor, não esqueça.
- Adeus…

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As Cruzadas em uma música: para usar em sala de aula

American Book Company, 1899) Há muito tempo, antes de inventaram essa tal de interdisciplinaridade, eu já fazia uso de conceitos de outras matérias em minhas aulas. Sempre acreditei que tanto a Literatura, quanto a Arte e a Música são fundamentais para que uma verdadeira aula de História possa vir a interessar aos alunos e nós, acreditem, termos mais motivos e motivações para que o nosso trabalho seja feito a contento. Lógico que eu não me limitava a estes campos do conhecimento e, dependendo do tema da aula, eu poderia falar sobre Geometria ou um pouco de Física. Na verdade, eu me divertia bastante fazendo isso. Portanto, quando a aula fosse sobre a Idade Média e alguns de seus aspectos, como As Cruzadas, eu fazia uso da música Agnus Sei (na voz de Elis Regina),  da dupla Bosco & Blanc. Abaixo, eu mostro a letra para que você possa entender os motivos pelos quais esta composição era utilizada.

Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
Vão levar ao reino dos minaretes
A paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis
Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer Satã só com orações
Á andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Á andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Á anda, ê hora, ê manda, ê mata,
Responderei não!
Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei
O meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão
Meu profano amor eu prefiro assim
á nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Ah, o tribunal não recordará
Dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão

Daqui em diante, seguem as explicações para o desenvolvimento da aula.

A princípio é necessário situar os alunos no tempo, isto é, explicar o que foi a Idade Média mesmo que em termos gerais, onde deve constar a estratificação social (Clero, Nobreza e povo), o feudalismo em si, a diferença entre servidão e escravidão e a predominância da religião no aspecto ideológico geral. Antes mesmo de apresentar a música, numa aula anterior, eu sempre passava o filme “O Exército Brancaleone”, para que os alunos pudessem visualizar o gestual, as roupas, a alimentação, a ordem e o ideal de cavalaria; bem como a questão das Cruzadas, que tão bem são apresentadas neste filme e, melhor ainda, em uma forma lúdica.

Ainda antes da apresentação era feito um histórico geral das Cruzadas, informando que foi um movimento não apenas religioso (pano de fundo), mas geopolítico, onde os cristãos ocidentais procuravam conquistar terras e riquezas no Oriente Médio, tendo como motivação ideológica a libertação da cidade sagrada de Jerusalém, que naquele momento estava em mãos muçulmanas. A primeira cruzada data do século XI, mais precisamente 1096 e prosseguiu em várias ondas até meados do século XV. Houve várias cruzadas, como a Cruzada das Crianças, por exemplo.

Ao apresentar a música, praticamente eu explicava a etimologia de algumas palavras. Na verdade, a letra e a música podem até mesmo ser encenadas. Eu diria que poderia ser feita uma pequena dramatização do texto. Por exemplo, a frase “Faces sob o sol, os olhos na cruz”, mostra a determinação dos cruzados em sua missão.

Bradbury, Soden, & Co., 1844)

Em “Vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos aríetes. A conversão para os infiéis”, há um prato cheio. Vejamos: Minarete (explicar o que é – um símbolo (torre) do islamismo, onde os muçulmanos são convocados por cânticos a orar). Depois a palavra ARIETE (Instrumento de guerra utilizado para invadir fortificações e portões) é explicada com seu sentido etimológico, derivando de Ares ou Áries (carneiro). Não era necessariamente a forma de um carneiro que havia em uma extremidade, mas o instrumento de guerra tomou este sentido devido os carneiros baterem as cabeças contra seus adversários. Conseqüentemente, os infiéis muçulmanos, seriam derrotados e a fé cristã prevaleceria.

Em “Ah, como é difícil tornar-se herói. Só quem tentou sabe como dói. Vencer Satã só com orações”. É muito claro que foi necessário “pegar em armas” para que a fé cristã fosse levada aos infiéis e assim, ao combatê-los, quando da morte de um cristão, o reino dos céus estaria com sua vaga reservada para esta alma, que lutou até a morte contra o inimigo da fé e também contra o demônio. No caso da letra da música, parece mais que é uma luta contra os demônios interiores, quando a ordem era matar o infiel e o cruzado se nega “Ê anda, ê hora, ê manda, ê mata, responderei não!

Em “Dominus dominium juros além”, podemos ver que a palavra Dominus significa Senhor, que tanto pode ser um senhor feudal ou Deus. Neste ponto eu aproveitava para falar do conceito de vassalagem e suserania. Dominus dominium tem um sentido de poder total sobre alguém que se submete como vassalo a um suserano que o protegerá. Havia todo um cerimonial para a “homenagem” e a “investidura”. Os “juros além”, eu aproveitava para falar que a conta seria paga no céu, de acordo com as “boas ações” praticadas pelos fiéis, e também falava sobre o pecado da usura, já puxando um gancho para nas aulas seguintes, falar sobre a Reforma.

A citação à Inquisição mostra bem a hipocrisia em que esta instituição estava fundamentada. Novamente era explicado o conceito e as formas pelas quais a Inquisição fazia valer os preceitos cristãos.

E o tribunal que se esquece de quem fugiu do Paraíso (Shangri-Lá) é a memória que se perde como o tempo e a ilusão de ser herói para alcançar a glória numa vida celestial.

Considerações finais

Aqui cabe uma observação. Nunca descobri o significado para “Catarandá”. Cheguei a encontrar em um texto, em italiano, a menção a esta palavra, mas como se fosse um sobrenome. Pode ser que seja uma onomatopéia inventada pelo Aldir.

Uma outra observação: como os tempos eram da Ditadura, acredito que haja um tanto de metáforas contidas na letra como uma forma de luta contra a opressão.

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Almoço na sogra e Bandalhismo

Certa vez, ainda nos tempos de namorado, lá pelos 19 anos de idade, num domingo minha sogra resolveu fazer rabada. Mandou avisar com antecedência. Como eu sempre gostei muito da dupla Bosco e Blanc e de rabada, vivia comprando discos e tocando suas músicas que avidamente esperava sair na antiga revista Violão & Guitarra, para depois impressionar a namorada com meus dotes musicais. Não me fiz de rogado.

Domingo, de banho tomado e todo cheiroso lá vou eu para a casa da namorada e levando debaixo do braço o LP Bandalhismo, doido pra mostrar para a sogra o quanto a música pode “casar” com a culinária.

Lá chegando já fui me apoderando da vitrola. Sim, sou desse tempo. Enquanto o rango estava nas preliminares para ser posto à mesa, e eu ataco de “Tal Mãe, Tal Filha” (“…minha sogra, Deus a tenha. O Terror da Penha. Velha desbocada, Center-Half nas peladas, braba de umbigada”). Alguns olhares da sogra foram meio enviesados. Será que ela pensou que era alguma indireta que eu estaria mandando? Acho que foi isso o que ela pensou. Até aí tudo bem. Mesa posta, nós três à mesa e a bandeja com a rabada fumegante a nos esperar. Cervejinhas rolando pra lá e pra cá até que falei que deveríamos comer a rabada ao som de “Bandalhismo”. Depois que os pratos foram devidamente servidos, levantei-me pedindo silêncio para que prestassem atenção na letra e coloquei a faixa do LP para tocar.

E começa o João Bosco… “Meu coração tem botequins imundos, antros de ronda vinte-e-um, porrinha…”. Olhares um tanto parados devido ao tema.

Garfadas suaves eram dadas para que a voz do João Bosco expusesse a letra. Olhares já um tanto esbugalhados da sogra para mim no “Essa vontade de soltar um barro” e eu todo feliz por estar mostrando cultura para ela. O João Bosco manda…” Como os pobres otários da Central já vomitei sem lenço e Sonrisal o P.F. de rabada com agrião…”. E eu ouço…”Minha filha ele ta estragando o almoço…”

Nem deu tempo de ouvir a parte com o Paulinho da Viola. Fiquei com cara de tacho e rapidinho tirei a música.

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Meme Literário

Acabei de receber um pedido do Henrique, do blog Vai Vendo…, para participar de um meme literário no qual eu devo escrever considerações sobre cinco autores preferidos. Confesso que é uma tarefa um tanto árdua, pois eu acredito que possa haver este ou aquele autor ou autora que sejam de preferência particular de cada um de nós. O receio é deixar de citar este/esta ou aquele/aquela autor/autora. Caso não venha a citá-los, prometo que o farei numa nova oportunidade.

Como eu não tenho um estilo literário preferido posso citar mais autores consagrados num estilo literário do que outro. Vamos a labuta:

Sergio (Stanislaw Ponte Preta) Porto

O seu carioquismo, conhecimento musical (Samba e Jazz) e, se vocês não sabem, foi ele quem redescobriu o Cartola quando este se tornara um simples lavador de carros – e a sua facilidade em ser extremamente humorado e crítico ao mesmo tempo me fizeram ser um ávido leitor de seus livros. Digo até que sinto forte influência do seu estilo em meus escritos. Vez ou outra eu cito termos que encontrei em seus livros como “plebe ignara”, “cocorocas”, “samba do crioulo doido” e o impagável FEBEAPÁ.

Hoje mesmo passei pela Rua da Borda do Mato, onde morava – e porque não dizer que ainda mora – a veneranda Tia Zulmira. Até pensei em escrever um post sobre esta passagem fortuita por esta rua. E, por uma grande coincidência sou convidado e falar sobre autores. Logo, o primeiro da lista não poderia deixar de ser o Sergio Porto.

Aldir Blanc

Seria impossível não citar o Aldir Blanc como um dos meus autores preferidos. Tenho todos seus livros e, em minha humilde opinião, o seu livro clássico é “Rua dos Artistas e Arredores”, quando nos apresenta o inesgotável universo de personagens do subúrbio carioca. Quem nasceu e foi criado em um subúrbio carioca, como este que vos escreve, vê e relembra tudo que só os bairros de subúrbio do Rio de Janeiro são capazes de ter e proporcionar.

Também vou cita-lo por conta das letras de suas composições com João Bosco que se tornaram clássicos da MPB como, por exemplo, “O Bêbado e a Equilibrista”. Assim, posso dizer que a influência de Aldir Blanc se faz em meus textos. Pô, eu sou carioca e do subúrbio!

Há uma frase sobre o amor, que o Aldir escreveu que acho fenomenal: “Eu aprendi que a alegria de quem está apaixonado é como a falsa euforia de um gol anulado”.

Italo Calvino

Dentre todos seus livros, que considero importantíssimos para se aprender e apreender o espírito lírico da alma humana, eu recomendo a leitura da trilogia “O Visconde Partido ao Meio”, “O Barão nas Árvores” e “O Cavaleiro Inexistente”. Todos falam da singularidade humana, cada um de um jeito como em O Visconde Partido ao Meio, quando Medardo di Terralba é partido ao meio por uma bala de canhão e as suas metades, uma boa e outra má passam a vagar pela terra praticando atos extremados de bondade ou de vilania. A conclusão que podemos ter é: Não se pode ser mau demais nem bom em demasia. Ambos se tornam chatíssimos e o ideal é o que temos em nós, o equilíbrio entre a bondade e a maldade.

Fernando Pessoa

Como alguém que fale Português deixaria de citar este escritor? É impossível não falar dele. Ah, mas você pode dizer: “Ora, ele era português e pouco tem a ver com o Brasil”. Ledo engano. Ele tem tudo a ver conosco. Apesar de termos a alma livre e o espírito alegre, no fundo; mas lá no fundo mesmo, trazemos aquela melancolia que herdamos da península ibérica, de Portugal. Da espera pelo “Desejado”, que no nosso caso é o porvir do “Brasil, país do futuro”. E se não fosse ele a nos dizer que “tudo vela e pena se a alma não é pequena”, como poderíamos encarar a vida e os reveses da mesma?

Machado de Assis

O Bruxo do Cosme Velho sempre me encurralou nas cordas quando eu era adolescente e na escola nos mandavam ler seus livros. Era um suplício! Um adolescente, aos doze anos, não está preparado para ler e absorver Machado de Assis. Porém, depois dos vinte anos, recomendo: não deixe de ler.

Eu, ali por volta dos 25 anos, já casado e pai, não sei por qual motivo fui pegar um livro numa estante em casa. Um livro dos tempos de graduação e, pode acreditar, como que por encanto (lugar comum, não?) um livro caiu aos meus pés. Bateu bem no dedão do pé e me agachei para pega-lo e coloca-lo de volta no lugar. Vi que tratava-se de “O Alienista”, uma edição de bolso daquelas que as professoras de Português nos mandavam comprar para ter como leitura obrigatória. Logo vieram as imagens dos tempos em que eu só levava nocaute do citado Bruxo. Ali mesmo fiquei a folhear o livro e reviver memórias. E não é que comecei a ler? E quem disse que eu parava? Dali em diante virei fã e não podia imaginar o quanto a leitura de Machado de Assis me ajudaria a compreender o Brasil e o Rio de Janeiro do século XIX. Em tempo: Seus livros são atualíssimos.

Indico os seguintes blogs que visito com regular freqüência:

Dúvidas & Angústias

Encanto

Intensidade

Palavras Sussuradas

Verblogando

Gilrang´s Blog

Espartilho

Aqui aproveito algumas palavras do Henrique:

Aos amigos, deverá ser indicado no seu blog o recebimento da indicação e a continuidade deste Meme. Antecipo meu pedido de desculpas, caso não seja do seu agrado a participação deste tipo de brincadeira.

 

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