Se você pensa que o portunhol é exclusivo das fronteiras do Brasil com seus vizinhos mais próximos, não se espante por saber que num pedaço do Rio de Janeiro, a Lapa, o Portunhol é quase língua franca.
No quadrilátero formado pelas ruas Joaquim Silva, Teotônio Regadas; a confluência da Avenida República do Paraguai com a Mem de Sá, que prossegue pela Rua da Lapa e a Travessa do Mosqueira há uma profusão de chilenos, argentinos, mexicanos, peruanos e bolivianos. Bem, estes dois últimos eu não posso garantir qual a procedência, pois todos parecem descendentes dos Incas, que como sabemos se espalhavam por quase toda costa da América do Sul banhada pelo Oceano Pacífico.
É muito interessante observar e ouvir como falam, quase chegando ao ponto de, assim como aquele personagem do Jô Soares, um general argentino que apoiou golpes de Estado e fugiu para o Brasil quando o Alfonsin começou a levá-los para os tribunais, que afirmava: “Yo soy bracilero… y minha mãe é baiana vendedora de acarajé, vissi”? Estes irmãos latino-americanos falam desse jeito mesmo.
Um deles é um chileno que às vezes canta músicas em Portunhol aos brados na rua e é divertidíssimo. Quase todas as manhãs entra no botequim e pede… “Quiero um pão na tchapa torradchinho e una média”. Eu mesmo já comprei um CD onde ele gravou os fatos da queda do Allende. Sempre conversamos sobre as coisas da latino-américa e de vez em quando eu o comparo, de brincadeira é claro, ao cantor de boleros chileno Lucho Gatica, alcunhado de El Rey del Bolero, chamando-o de O Lucho Gatica da Lapa.
Outro chileno da Lapa é o Selaron, artista que constrói incessantemente uma escadaria formada por azulejos de todas as partes do mundo. Vários murais e também paredes dos bares e restaurantes da Lapa têm obras suas. O detalhe interessante é que ele só usa as cores preta, branca e vermelha nestes quadros. e murais. A escadaria é famosa. Vira e mexe aparece uma equipe de cinema ou televisão para gravar filmes como o Incrível Hulk, séries de TV como CSI Miami, clip de cantor de Rap como o Snoopy Doggy Dog e também serve de cenário para novelas globais. Até comercial para TV polonesa já foi gravado na escadaria Selaron. Também chegam grupos de gringos rosados para ver a tal escadaria e a língua em que todos se comunicam é uma algaravia de Inglês, Português, Espanhol e Portunhol. Uma verdadeira escada de Babel.
Hoje pela manhã, numa padaria da Rua da Lapa, uma menina baixinha estava se despedindo dos balconistas. Um deles desejou boa viagem e até calculou o tempo que levaria o vôo de volta. Vamos ao diálogo:
- Deve levar umas três horas, né?
- Nada. Fica a lejos. Unas 14 horas”. (Disse um rapaz que acompanhava a baixinha).
- Ué? Mas não vai para a Argentina?
- Yo soy arrentino. Ela é mexicana…
- Sim, soy metchicana! Me vou para Métchico.
E todos se despediram usando aquele cumprimento informal em italiano (ciao), que também serve de despedida e aportuguesamos… TCHAU!
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